Esse estranho sentimento.

(version française ici)

Não acredito muito nessa história de instinto materno. E ainda menos no tal do amor materno. Ser mãe – como ser pai – são construções sociais, determinadas por nossa cultura, nossa história, a época em que vivemos, aqueles que nos cercam. Ser mãe ou pai certamente não tem o mesmo significado hoje que tinha no século XVIII. Mas tomamos como uma evidência à qual tentamos nos adequar, do mesmo modo como tentamos nos adaptar a tudo aquilo que parece ser “como deve ser”.

Tem uma autora muito perspicaz que escreve frequentemente a respeito do mito do amor materno, a historiadora Elisabeth Badinter. Ela trabalha para desconstruir a idéia de que o amor materno seria instintivo, inato e natural, mostrando todas as circunstâncias que contribuem para sua existência. Vale a leitura.

Mas, voltando a esse estranho sentimento, sempre achei uma grande violência exigir que as mulheres:

  1. queiram ter filhos;
  2. sintam-se felizes e realizadas ao tê-los;
  3. os amem incondicionalmente.

Porque nada disso, ao contrário do que nos querem fazer acreditar, é natural ou evidente.  Podemos querer ter filhos ou não, podemos nos realizar com a experiência da maternidade ou não, podemos amar nossos filhos ou não. E ninguém deveria ser julgado ou culpabilizado quando não segue a conduta da massa nesse assunto. Mas a maior parte das pessoas prefere apontar o dedo e criticar quem não se adapta ao padrão, né? Como se houvesse apenas um modo de viver, de sentir e apenas um desejo legítimo de se realizar nessa vida. Que pobreza de espírito… Sigamos.

Lembro do período em que fazia meu mestrado e uma de minhas colegas escrevia, justamente, a respeito da adoção. Ela defendia a idéia de que, em caso de adoção, havia uma relação entre mãe e bebê que tinha que ser construída, um afeto que tinha que ser criado, pois eles não estavam desde sempre lá, presentes e nem garantidos, visto que o bebê não era filho daquela mãe. Era uma tese interessante, mas que caía justamente nessa suposição, que acabei de apresentar, de que um bebê e sua mãe “de sangue” não teriam nenhum trabalho a fazer, tudo estaria ali pronto e dado para eles: o laço, a ligação, o sentimento, o amor, a relação, a intimidade. Como se uma mãe “de sangue” não tivesse, ela mesma, que tornar-se mãe.

Não me parece que seja assim.

Mulheres grávidas têm as mais diversas reações a esse fato. E o mesmo acontece depois que o bebê nasce. Tem gente que esquece que está grávida, que não sente nada, nenhuma ligação com o bebê na barriga. Tem gente que não sente um laço depois que ele nasce. Tem gente que antes mesmo de engravidar já está criando uma história entre si e aquele potencial filho… Tantas possibilidades quanto existem pessoas nesse mundo. Nenhuma é melhor do que a outra.

Existe um filme magnífico do cineasta argentino Pablo Trapero chamado Leonera que fala exatamente disso, do momento em que uma mulher vira mãe. Nesse caso, uma mulher que é presa suspeita de ter assassinado o marido e que se descobre grávida na prisão, não tendo nenhum interesse nessa gravidez e nem na criança que nasce até que…

Pois é, parece que, às vezes, acontece um até que. Um momento, uma situação que faz sentido e cria a possibilidade de que uma mulher vire mãe. Em algum momento. Vemos como isso acontece no filme, já vi isso acontecer com mulheres da minha família e com pacientes em consultório. Já vi isso não acontecer também. E, por isso, por não ser uma obviedade, ficava curiosa em saber se isso aconteceria para mim. E quando aconteceria.

Que os ultrasons ajudaram a tornar real a experiência da gravidez, já contei aqui. Que falar com o bebê na barriga ajudou a inventar um diálogo com uma outra pessoa que, nesse momento, partilha intimamente do meu dia-a-dia, isso também contribuiu. Como uma construção que vai se fazendo tijolo por tijolo, um dia após o outro, as imagens, as conversas… Até saber que é uma menina e tornar tudo ainda mais real, um bebê que é uma menina, que tem um nome, que tem uma carinha que começo a ficar curiosa por conhecer… E passar a chamar de filha, um momento tão forte em que me dei conta de que, para mim, ela não apenas existe como tem um nome e um lugar… Tudo isso antes mesmo de nascer, quem diria. Quem diria que comigo seria assim?

Não sei se tive um momento único, um até que. Ou se esse caldo de momentos é que foram semeando em mim o meu até que. Sei que, noutro dia, acordei, olhei para minha barriga, dei bom dia para minha filha e sorri à toa, sentindo um amor muito profundo por uma pessoa que ainda mal conheço. Que não seja natural ou evidente apenas torna isso tudo ainda mais extraordinário.

Leonera - Pablo Trapero
Leonera – Pablo Trapero

A enxurrada dos outros…

OK, a ficha caiu, você entendeu que está grávida, que é real, de verdade, encarnado nas entranhas, cotidiano, inesperado… Você percebeu que segue o curso da vida, que faz parte da vida, sem cena de filme, slow motion, música de fundo, happy ending e tudo o mais que o imaginário hollywoodiano perversamente ajudou a enfiar na sua cabeça, dando o falso nome de romantismo a todas essas expectativas infundadas… Você está quase segurando a própria onda, mas então vêm os outros. Já dizia o velho Sartre: “o inferno são os outros”. Para o melhor e para o pior. Na alegria e na tristeza. Putz…

Minhanossaparabénsquecoisalindaquemaravilhavocêquistantodeveestaremestadodegraça… (Oi? Calma, deixa eu respirar, respira um pouco também, toma um chá, fuma um cigarro.) Não, porque você não fuma, né? Porque agora, vai ter que parar. Tem que cuidar do seu bebê. Aliás, beber, não pode. Faz mal pro bebê. Comer peixe cru, é proibido, você não sabe? Carne crua então? Banida para todo o sempre amém até o fim da amamentação. Olha, esfrega os peitos com uma bucha para não rachar. Esfrega mesmo, não para ficar hidratado, mas para virar uma crosta. Você já sabe se é menino ou menina? (Dãh…) O que você prefere? Ah, que bonitinho, vai ser a cara da mãe, do pai, dos avós, dos irmãos, do cachorro, do papagaio, do padeiro. Sempre soube que você seria mãe, você nasceu para ser mãe. (Hein?) Vai ser bilíngüe, que belezinha, falando português e francês, que amor. Olha, tem que se alimentar direito, dormir bem, até mesmo porque, depois que nascer, você nunca mais vai dormir na sua vida.

Babel - Cildo Meireles - 2001
Babel – Cildo Meireles – 2001

Sério, de onde as pessoas tiram esses comentários? Elas querem comemorar com você ou te fazer se jogar pela janela? Nada pode, faça isso, faça aquilo, nunca mais, acabou sua vida de tranqüilidade, sossego, casa arrumada, viagem, festa, amigos, sono, pele boa. É o quê? Um parabéns às avessas? Uma sede de vingança? Porque eu custo a acreditar que as pessoas realmente pensem que aquilo que elas estão dizendo, as dicas, o compartilhamento de suas experiências as mais grotescas tratando de cocôs, vômitos, doenças, perebas, celulites, estrias, peitos caídos, sobrepeso, cansaço, falta de sono e mais enjôos e enjôos e enjôos… duvido que os próprios seres falantes acreditem do fundo de seus coraçõezinhos que esse conversê todo ajuda a quem está do outro lado da linha, ali, ouvindo. Deve ser uma forma de evacuar, uma catarse, um exorcismo: falar de todo o horror com um sorriso no rosto, o olhar cúmplice e o tom de voz reconfortante de um parabénsestoutãofelizporvocê… E você com olhos de terror. Pois, se você tem ouvidos e eles escutam bem, os olhos reagem de acordo e viram duas estrelas estaladas na sua cara, prontos para sair correndo junto com todo o resto do corpo se ao menos você conseguisse fazer suas pernas te levantarem e correrem, correrem, correrem para o mais longe possível.

E então vêm os livros, os sites, os blogs (ops!), os fóruns, os programas na TV, os filmes, o John Travolta, a Kirstie Alley e o bebezinho tagarela do Olha quem está falando e você se percebe mergulhada em uma Babel de falas, palavras, frases, línguas… um ruído ensurdecedor, enlouquecedor. Tentar acompanhar, seguir, se orientar em meio a isso vira uma tarefa hercúlea, fadada ao fracasso. As opiniões, conselhos, orientações, tudo se contradiz, ninguém sabe o que fazer… qual é o caminho certo? Qual é o único caminho certo, a verdade?

imgres-1

Tem gente que se salva no médico e no saber médico nessas horas. Toma as palavras do médico como cânones religiosos e segue à risca tudo. Tudinho. Mas isso não garante nada, não é mesmo? Se garantisse, todos os casos de inseminação artificial – situação na qual a gravidez não poderia ser mais controlada, vigiada, manipulada e orientada pelo saber médico – seriam bem sucedidos. Se os médicos soubessem exatamente o que fazer, como fazer ou quando fazer para garantir que uma gravidez corra bem, não teríamos, em tempos de primazia do saber e do poder médico sobre os nossos corpos, nenhuma gravidez que vai mal. Mas não é bem assim. E a gente, na angústia de perceber nossa falta de garantias, nossa vulnerabilidade ao acaso em uma hora como essas, prefere se confortar imaginando que a gente não sabe, mas alguém sabe. Alguém há de saber que tudo há de correr bem: o médico, a ciência, a nutricionista, o padre, o astrólogo, o psicanalista, Deus… Outro bom e velho, o Freud, já dizia que nós, os neuróticos, quando não podemos mais negar a nossa própria insuficiência e falta de garantia sobre nossa própria vida, quando não podemos desviar mais os olhos, arrumamos ainda um último suspiro e, numa tacada de mestre, deslocamos para outra pessoa a onipotência que vamos nos vendo perder: eu não posso, mas alguém pode. A onipotência da mãe não castrada, frase difícil, mas tão simples e verdadeira como o senso comum que se apressa a dizer que sempre existe, em algum  lugar, uma festa incrível acontecendo, para a qual você não foi convidado. Você está excluído, mas alguém está lá. Então, é só questão de descobrir como fazer para estar lá você também, como tampar os buracos, como conseguir todas as garantias. Alguém já viu vida com atestado de garantia? “Se você viver assim, vai ser feliz para todo sempre…” Ah, sim, nos contos de fada e nos filmes acontece… oh, wait!

Bom, o fato é que os outros engatam a quinta marcha da verborragia e você não sabe mais nem o que pensar ou por onde começar. E tudo isso porque você tem que estar muito, muito, muito feliz. Ouvido de penico e sorriso estampado no rosto, a imagem do estado de graça. Tentando seguir todos os conselhos. E fazer tudo certo. Certo?

Não. Donald W. Winnicott, um psicanalista inglês que era, também, pediatra entendeu, para a nossa sorte – ou a minha, ao menos – que uma mãe boa é uma mãe que é suficiente. Suficiente. Não perfeita. Não total. Não inteiramente certa. Em suas consultas como pediatra e como psicanalista, ele se deparou com muitas situações envolvendo as mães e seus bebês e adiantou – visionário – o que ia se intensificar no nosso século, chegando às beiras do insuportável: temos um excesso de falas, um excesso de saberes, um excesso de ditos, uma cacofonia absurda e enlouquecedora a respeito da maternidade. Uma cobrança pela perfeição, em meio à todo esse barulho. Enquanto que, segundo ele, se deixarmos um espaço para que essa mãe exista, ela vai achar o seu caminho como mãe. Ela vai fazer o melhor. Ela vai ser suficiente. E suficiente, é bom. Menos barulho, menos informação, menos conselhos, menos dicas, talvez faça sentido o silêncio que me acomete nesse início de gravidez. Silenciar para gestar. Silenciar para encontrar o quê e como fazer. Shhhhh…

imgres-3imgres-6

imgres-3imgres-5

imgres-4

A enxurrada.

Eu contei a ele. Ou melhor, mostrei o teste de farmácia e ele ficou bem mais calmo do que eu. Também, já tem três filhos e eu, marinheira de primeira viagem, entre o riso, o choro e a negação pura e simples. Isso é bom, isso é maravilhoso, isso é péssimo, isso é um pesadelo… E agora, o que faço das minhas viagens, trabalho, pesquisa, roupa de mergulho, balada com os amigos? O que faço dos projetos que eu tinha, ou do conforto acomodado de acreditar que eu sabia quais projetos tinha, o que iria fazer em seguida, onde estaria amanhã ou depois… o que fazer de todas essas certezas?

“Você está gestando. Está em estado de graça. É uma coisa maravilhosa.” Isso era a última coisa que eu precisava ouvir, esse chamado para o enquadramento, essa exigência da felicidade absoluta, esse fim de todas as questões. Porque antes de ficar feliz, alegre, eufórica com a notícia – ou ao mesmo tempo em que ficava feliz – eu precisava de espaço, de tempo e de autorização para ficar outras coisas também: tensa, indiferente, descrente, triste, irritada, preocupada, apavorada… Uma enxurrada de coisas, uma retrospectiva de toda a minha vida, de tantas vezes que desejei isso, de toda a minha história com ter filhos, dos tempos em que quis, não quis, quis de novo, não quis mais, tentei, desisti… E agora, justo agora?

Pois é, agora mesmo. Lembro de uma mulher que passou anos fazendo tratamento para engravidar. Anos. Ela tinha mais de 40 quando a conheci. E tentava. A vida girava em torno disso, era muito importante. Ela sofria horrores. Uma dor de alma a cada dia. E haviam dito para ela que na hora em que você relaxa, esquece, deixa para lá, a cosia acontece. E todos aqueles exemplos de mulher que não conseguia engravidar, adotou e ficou grávida no minuto seguinte. Ou daquela que separou e engravidou de uma aventura no minuto seguinte. No minuto seguinte à desistência, acaba acontecendo. Essa mulher tentava se convencer de que desistiu. Tentava desistir sem ter desistido, assim como quem tenta enganar a morte, como aquele sujeito do Sétimo Selo do Bergman… jogando xadrez, jogando xadrez, negociando. Ela tentou e tentou negociar, tentou fazer de conta, dar um truque. Não deu. O Bergman era genial, ele sabia que nunca dá, a gente nunca consegue contornar o que deseja para fazer de conta que não deseja para a vida passar distraída e nos dar o que queremos…

Levou uns bons dias para a “ficha cair”… ou melhor, umas boas provas de realidade. Don’t blame me. Vivemos em um mundo em que a imagem se substituiu a quase tudo e em que praticamente tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo. O que garante a realidade de algo hoje em dia? Um teste de farmácia? Um exame de sangue? Enjôo? Cansaço? Eu precisei chegar até o primeiro ultrassom, oscilando entre saber e não saber, balançando entre lembrar e esquecer, entre pensar a vida como se nada fosse e pensar em como mudar a vida, entre querer, decidir querer e reclamar que não era bem assim que eu imaginava… Primeira consulta médica, primeiro ultrassom: está ali, existe. Pronto, para mim teve efeito de realidade. Estou grávida.

O Sétimo Selo - Ingmar Bergman
O Sétimo Selo – Ingmar Bergman