O quarteto

Todo mundo diz que cada gravidez é uma e que cada parto é um parto. É verdade. Mas é aquele tipo de verdade que mesmo que você saiba, só entende mesmo na prática. Do nascimento da minha filha há dois anos e meio atrás até o nascimento do meu filho há alguns dias, um mundo de experiências, de descobertas, de alegrias e dificuldades se descortinou. Minha vida tornou-se outra, uma vida reinventada, em que a alegria de ser mãe da minha pequena, dessa minha “pequena ela mesma”, surpreendeu-me em cada mínimo detalhe do mais simples acontecimento cotidiano. Ser mãe dessa menina… que sorte, que privilégio. Poderia ter passado a vida sem ter filhos e nunca saberia o que teria perdido. E talvez isso não fosse um problema. Mas depois que ela chegou, impossível conceber a vida sem que minha menina faça parte dos planos, dos pensamentos e dos anseios. Parte fundamental, daquelas como um coração, ou um cérebro, ou um fígado. Você não vive sem.

Então, com o fim da segunda gravidez se aproximando, para minha surpresa comecei a sentir medo. Medo da mudança dessa vida tão repleta de alegrias, medo dessa “ordem” que eu sabia que iria desaparecer tão logo o rebentinho botasse a cabeça para fora do seu cafofo e começasse a respirar. Porque, sim, todo mundo diz que muda. E muda. E quem é que não vai ter medo de mudar algo que está tão bom? Quem mexe em time que está ganhando, né?

Nós mexemos e o pequenino ia ter que sair cedo ou tarde, de um jeito ou de outro. Causa, consequência. A não ser que ele decidisse ficar por ali até completar 18 anos e saísse direto para a faculdade mas, tendo em vista que eu e minha pancinha de 8 meses estávamos pedindo água, melhor que fosse logo.

Quando as contrações começaram no final da madrugada, passei um longo tempo olhando a pequena e o cara-metade que dormiam sem saber que aquela nossa vida tinha terminado. Para eles ainda era ontem, enquanto que para mim havia chegado o amanhã. Coisa estranha essa diferença de tempos. Coisa estranha colocar uma criança no mundo em tempos tão difíceis para onde quer que se olhe. Coisa estranha ficar feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando o cara-metade acordou e me perguntou o que havia, me olhou bem e disse: “do jeito que você está calma, vai parir é hoje mesmo”. Aquela calma que invade a gente no dia do parto, quantas de nós a sentimos? Uma serenidade, um sorriso no rosto, aquela confiança de que tudo vai correr bem. Isso tudo é mais presente que o medo, a nostalgia, as preocupações. E é o que faz a gente confiar até o fim.

Como o segundo é diferente do primeiro, não tinha mala da maternidade preparada (hahaha, olha a “menas main” aí). Foi negligência ou uma vontade que durou até o finalzinho de ter o bebê ali em casa mesmo, apenas com a família, sem acompanhamento de nenhum profissional, já que isso se revelou impossível nesse canto onde moramos? Até o fim a esperança de um parto domiciliar. Para que sair de casa? Para que ir à maternidade? Para que colocar complicações em algo que pode ser tão simples? Perguntas que nunca pude responder totalmente e, sem poder ter certeza, e sem que o cara-metade bancasse junto para criar uma certeza forte e consistente, naquela madrugada decidi que na maternidade seria.

Uma das artes de parir nos nossos tempos e nas nossas condições, a meu ver, é conseguir o delicado equilíbrio entre saber e desconhecer. A partir do momento em que você decide fazer algo fora do padrão, precisa se informar. Pois são as informações que garantem aumentar suas chances de conseguir o parto humanizado que julga ser o melhor para o bebê e para você. Então, você passa o tempo todo coletando informações, aprendendo, pensando nas possibilidades, em onde ir, em como argumentar, em como fazer. Todo um trabalho cotidiano do que as pessoas chamam hoje em dia de “emponderamento”, que significa tomar decisões consciente do que está implicado nelas.

Mas, ao mesmo tempo, parir implica em se deixar levar por outra coisa em si que não o pensamento. Não é o que sabemos que faz o parto, não é o raciocínio, não é o que controlamos. É o que acontece ali, na brecha do que sabemos, na forma de uma ação que nos escapa. Ou seja, é preciso saber para poder parir e é preciso esquecer ou desconhecer para poder parir. Como é que faz, né?

Enquanto a noite ainda deixava tudo escuro lá fora e o silêncio das respirações dos sonolentos ali de casa faziam barulho de fundo, teve mala feita, teve banho, teve até café da manhã. E mais um longo cochilo. Até que o dia clareou e a pequena acordou. “Hoje é o dia em que seu irmão vai sair da barriga”. Lá foi ela para a casa da melhor amiga comendo um pãozinho. Lá fomos para a maternidade.

Domingão, dia de plantão. Não era o meu médico quem estava de guarda nesse dia, alguém que escolhi com muito cuidado porque aqui onde estamos são os obstetras que aparecem no final do parto, para o expulsivo apenas, enquanto as sage-femmes fazem todo o acompanhamento. Escolhi um sujeito bastante flexível e ao longo do pré-natal fui contando para ele em doses homeopáticas como gostaria que as coisas fossem no dia D. Ele pareceu aberto e disposto a deixar bebê e eu tranquilos, o que já é bastante coisa. O médico de plantão era, como disse gentilmente a enfermeira obstétrica que nos recebeu, “o oposto do Dr. Gente Boa”. Jeito suave de dizer que era o plantão de um obstetra que adora ser ator principal do parto alheio, adora romper bolsa, dar ocitocina sintética para acelerar trabalho de parto que corre bem, fazer fórceps… Eu fiquei tensa, com medo desse sujeito surgir na sala de parto e de eu ter que ter forças de brigar com ele, de dizer não. Conclusão: essa preocupação ficou ali junto com as informações e os saberes como um ruído de fundo que me acompanhou praticamente ao longo do parto inteiro, dificultando essa entrega para o desconhecido tão necessária.

sage-femme, pelo contrário, foi o anjo da guarda que caiu do céu para cuidar da gente. Um misto de enfermeira obstétrica comme il faut com doula por intuição, ela entendeu rapidamente e muito bem como queríamos viver esse parto e nos deu o que precisávamos: tomou para si a responsabilidade de não avisar o plantonista até depois do parto terminado, deixou-nos em paz, tranquilos, na sala de parto natural, sem luz hospitalar, com banheira, bola e copo d’água, sem monitoramento, sem nenhuma intervenção. Passou para nos ver duas vezes e depois voltou apenas quando chamamos… ah, a sorte dá uma mãozinha às vezes, não?

Dentro da barriga, o pequeno trabalhou como um valente. Descendo pouquinho a pouquinho a cada contração, lá foi ele se aproximando da hora de nos encontrarmos. Sem saber, sem conhecer, vivendo tudo pela primeira vez. Essa coisa incrível da primeira vez de tudo… como são corajosos os bebês que se lançam nessa de nascer sem terem lido um calhau de referências bibliográficas antes.

Respirar, abrir-se, deixar o bebê descer, deixar acontecer. Banheira, água quente, respiração… eis a magia de um parto sem anestesia e com dor no limite do suportável. Ou a magia do que funcionou nas duas vezes para mim. Isso e o milagre da posição deitada de lado…

Deitada de lado, quem diria que essa seria uma posição maravilhosa para fazer o bebê descer e nascer? Como a bolsa não rompeu até o último minuto, o pequeno desceu aos pouquinhos, bem malemolente, ao contrário da irmã com quem a bolsa rompeu de cara e ela logo desceu para apoiar a cabeça direto no meu colo. O pequeno não, ele veio na maciota, as contrações mais leves, o trabalho mais longo… Tudo diferente, assim eu não sabia parir.

É engraçado como a gente sempre precisa se apoiar em alguma coisa para brigar um pouco contra o desconhecido. Se não é nos saberes e nas informações, é no que viveu. A bolsa não rompeu, há que se confiar às contrações. Bebê desce aos poucos? Há que se confiar às contrações. E se abrir.

Sim, cada parto é um confronto entre você e seus próprios demônios. O bebê e você. E seus fantasmas. Do parto anterior, dos ideais, dos saberes…

Eu respirava, basculava a bacia e me abria. E pensava que o médico poderia chegar e querer usar um fórceps e tinha medo e me fechava. O pequeno descendo e eu no abre e fecha. Vem pra vida, meu filho, não vem não. Quem bota um filho num mundo desses?

Lá pelos 8 de dilatação as contrações mudam. O pequeno está ali embaixo, apoiado na bolsa que apóia no meu colo. Chamamos a sage-femme, ela sugere que eu sente no balão para ajudá-lo a descer. Cadê essa bolsa que não estoura? Estoura, explode, medo vai, medo vem, chega aquele momento do qual todo mundo fala, mas que a gente só entende quando vive. E depois esquece para lembrar no parto seguinte. Cansei, quero desistir, tira esse menino daí, quem teve a brilhante idéia de não querer anestesia, quero dormir, tô cansada, só quero que isso acabe, não chega não, seu plantonista, cara-metade, me faz um cafuné aqui, tô cansada, esse menino não vem não, chama o plantonista, por favor, tô delegando, lavo minhas mãos, quero nem saber… Tudo isso dentro da cabeça, por fora eu parecia a expressão mais perfeita da calma, da beatitude e da respiração profunda.

sage-femme anjo vem novamente e sugere um segundo milagre, deitar de lado sobre o lado esquerdo e respirar. Eu, querendo tirar um cochilo, topo experimentar. Deito de lado, três contrações no máximo e… tchibum… lá se vai a bolsa e, com ela, todos os medos, freios e afins.

Como é libertador berrar o filho que nasce. É o fundo mais profundo de quem você é, suas entranhas, sua vida. A vida que renasce e recomeça.

Ele nasce direto para os meus braços. Ele grita. Ele é… lindo. Aquele amor que inunda as narinas do cheiro do seu rebento, aquele que agora parece que sempre esteve ali. Aquele que você acaba de conhecer. Ele procura o peito e já começa a testar aquele delicioso encontro tão apaziguante de cheiros, de pele, de boca e peito, de calores, de leite. Tudo pela primeira vez.

Médico chegou depois que até mesmo a placenta já tinha saído. Quis reclamar com a sage-femme que deu uma resposta atravessada para ele. Como adoro essa capacidade tão francesa de responder à altura e sem subserviência…

8 horas de trabalho de parto. 5 para a minha pequena. Não é tanta diferença assim, mas o tempo é tão elástico, não? Ele se dobra e se desdobra com nossos sentimentos, nossos medos, nossos anseios, nossos freios e nossas aberturas. Um tempo tão diferente, um parto tão diferente. Mas igualmente maravilhoso. E igualmente desconhecido. E assustador. E maravilhoso. E maravilhoso. E maravilhoso.

Foi assim que a vida que parece valer tão pouco em nossos dias recomeçou aqui em casa. Provando que o amor e a vida persistem, insistem, existem. Há que se lutar por um mundo que faça jus a essa vida e a receba com generosidade, cuidado, carinho e respeito. Há que se lutar por que essas vidas façam jus a um mundo melhor e participem da criação dele. Muitas lutas ainda por vir, numa vida que esses dois pequenos fazem valer à pena.

O trio virou quarteto. Bem vindo, filho!

 

Bibliografia básica para parto humanizado

Hehehehehe, quem tem vício de trabalho acadêmico adora uma bibliografia no final, né? Mas, sem querer intelectualizar demais a coisa, aqui vão algumas leituras que descobri ao longo desse tempo e que me ajudaram muito na época da gravidez ou até mesmo depois, para entender melhor o que havia vivido. Depois dos textos sobre parto de anteontem e ontem, é o último da série. Por enquanto.

Tem uma enfermeira obstétrica americana, chamada Ina May Gaskin, que foi minha primeira grande descoberta nesse mundo do parto humanizado. Ela é incrível, muito sábia e experiente e fala muito bem sobre o parto, o medo no parto, as dores, o que atrapalha, o que ajuda. Acho que foi quem mais me esclareceu sobre o quanto o medo é importante para delimitar o que você vai viver na experiência de parto. Então, se você entende bem inglês, eu assisti uma série de palestras dela via internet que adorei. Aqui, alguns dos episódios: sobre a ocitocinasobre o medo no partosobre a dor no parto. Você pode ver toda a série de videos pelo youtube, eu recomendo.

Outra “leitura” obrigatória é o documentário O renascimento do parto. Desse eu participei do crowdfunding, mas só fui ver o filme mesmo depois que a pequena tinha nascido. É muito esclarecedor e ajuda a pensar na importância para nossos filhos e para o mundo de cuidarmos da forma como eles vêm ao mundo. Tem até uma palhinha no youtube. Ou você pode comprar o DVD. Funciona como um livro de cabeceira e é um dos meus melhores argumentos para gente que defende a cesárea porque “se as famosas fazem, a gente quer também” (juro, já ouvi isso). Esse filme, a Gisele Bündchen e a Kate Middleton, claro.

Outra autora de quem gosto muito, para pensar a maternidade e o parto, é a Laura Gutman. Pena que só fui ler há uns dois meses, mas ela traduz maravilhosamente muitas das nossas vivências durante a gestação, o parto e o puerpério. Vários lugares na net publicam trechos dos livros dela, eis aqui alguns que têm mais a ver com a questão do parto e que acho que podem ajudar a pensar: no site Mamatraca e no livro dela “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, em que o capitulo 2 é sobre o parto. E caso se interesse por essa abordagem mais psicanalítica da maternidade, recomendo vivamente a leitura da obra de Françoise Dolto, com quem a Gutman se formou e do bom e velho D.W.Winnicott, minha referência de coração e mente para pensar a maternagem.

Esse site é muito bom em informações também. Tem ótimas informações sobre parto no Brasil, além de sobre trabalho de parto, parto humanizado, o papel do pai…

Um texto bem interessante sobre a dor do parto.

Esse texto aqui, da Melania Amorim, virou rapidamente minha referência para as justificativas fajutas para uma cesariana. Não que isso ocorra tanto aqui na França, mas acho importante saber. Porque ela nos ajuda a perceber que a maior parte dos motivos dados para cesariana são falsos e, com isso, nos ajuda a perceber que são poucos os verdadeiros motivos para algo dar errado e um médico ter que intervir no parto. Isso traz mais segurança sobre o quanto somos capazes de parir, o quanto os riscos, perigos e problemas são a exceção e não a regra e o quanto são imensas as chances de que tudo simplesmente corra bem.

No âmbito dos relatos de parto – que eu adorava ler enquanto estava grávida, porque me enchiam de coragem e continuo gostande de ler hoje porque me emocionam, invariavelmente – o pessoal do GAMA, um grupo de São Paulo que apoia o parto humanizado, tem vários relatos de parto bem interessantes. Outros relatos de parto aqui, no Vila Mamífera. Tem o meu próprio relato, claro. Noutro dia li esse relato lindo, também, que fala de um parto rápido, consciente e apropriado… E esse outro bastante sensível, falando das coisas que não sabemos e deveríamos, para sermos mais senhoras de nossas escolhas. Enfim, tem para todos os gostos, é muita inspiração na web.

Outra referência quando o assunto é parto, o Michel Odent, que coloca as coisas em termos bem simples e claros. Além dos livros dele, há várias entrevistas e pequenos textos espalhados pela web, vale a busca.

Por fim, tem a bela iniciativa do Projeto Clarear, da Ceila Santos do Desabafo de Mãe, que lançou uma “campanha” no portal Mamatraca perguntando o que as grávidas querem saber agora. Uma porta aberta para a troca de informações que sejam coerentes com aquilo que realmente pensamos, sentimos e nos perguntamos durante a gravidez, bem distante da maioria dos pitacos inoportunos que ouvimos ao longo de todo o período. Visite o portal e dê sua contribuição!

Quem tiver mais dicas de leituras, vídeos, sites e afins, coloca nos comentários, por favor.

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Em tempo: a Gabi Ramalho lembrou, nos comentários, dos grupos no Facebook, verdadeiras redes de informação e solidariedade para grávidas, parturientes, mães e afins. Indicou o Cesárea? Não, obrigada! que eu coloco em link aqui, para quem se interessar. Valeu, Gabi!

 

Como se preparar para um parto normal?

Continuando esse texto aqui e tentando pensar no que ajuda a nos prepararmos para o parto. Na medida em que isso é possível, claro, pois o parto é uma experiência de total descontrole e de entrega, em que sua razão não consegue fazer nada por você enquanto seu corpo age. E um dos aprendizados é justamente deixar esse corpo agir e confiar na sua sabedoria. Então, segue uma lista de pequenos aprendizados e grandes descobertas que fiz e que talvez sejam úteis para outras mulheres que querem tentar evitar a cascata de intervenções médicas na qual se transformou o nascimento na maioria dos lugares hoje em dia:

  • Recusando a anestesia – que é reconhecidamente a porta de entrada para muitas outras intervenções que se seguem a ela, como a administração da ocitocina sintética, a episiotomia, o parir na posição ginecológica… Fato: na medida em que você abre mão de sentir boa parte do seu corpo, fica literalmente à mercê de que ele seja manipulado pelos outros como bem entenderem. Se você não sente nada da cintura para baixo, a dor das contrações não envia mensagens para seu cérebro produzir ocitocina, que não entende que tem que contrair, dilatar, produzir leite… o que leva a trabalhos de parto que empacam, contrações que cessam, dilatações que recuam, leite que demora a descer… o que leva à ocitocina sintética, que não aparece na medida do que o corpo precisa ou pode compreender, o que leva a contrações muito mais intensas e à mais dor e, às vezes, até a um sofrimento por parte do bebê… o que leva ao medo e o medo é um dos elementos mais importantes para fazer um parto parar, desandar ou acontecer de maneira sofrida e dolorosa. Ainda, anestesiada de mais da metade do seu corpo, parir será apenas na posição ginecológica, porque não há como mudar de posição sem sentir as pernas. E essa posição não facilita muito a descida do bebê… o que leva a mais dificuldades no expulsivo, o que implica em fazer mais força, o que justifica muitas vezes aquela abominação que é alguém subir na sua barriga e empurrar por você, o que significa um bebê sendo empurrado com força demais, o que significa lacerações maiores no períneo… o que justifica outra aberração que é fazer episiotomia e cortar camadas e mais camadas sob o pretexto de que isso vai doer menos e cicatrizar melhor do que uma laceração… Bom, acho que deu para entender que uma coisa puxa a outra e que quando menos se espera a gente se vê arrastado em um mecanismo do qual não consegue mais se livrar. Então, por que começar?
  • Conhecendo ao máximo o próprio corpo e aprendendo como ele funciona e quais são os métodos de alívio da dor não medicamentosos. Tenho a sorte de ter feito dança durante quase toda a minha vida, o que fez com que eu adquirisse uma boa noção de como o meu corpo funciona. Não apenas a fisiologia do parto, saber como acontece na prática para um bebê nascer mas, também, poder entender como encontrar boas posições, como bascular a bacia para frente para alinhar o corpo de modo a facilitar a saída do bebê, como variar posições de maneira confortável e, principalmente, como respirar. Respirar – como muitas vezes aprendemos em cursos de yoga – é a base para manter o equilíbrio e a tranquilidade ao longo de todo o parto. Ao menos, foi para mim. Nesse sentido, foi super importante um curso que fiz aqui de preparação para o parto, que todas as grávidas fazem, e que foi dado por uma sage-femme especialista em sofrologia. Não encontrei nenhum equivalente disso no Brasil, mas se trata de uma técnica de respiração que, no que diz respeito à gravidez, te ensina a respirar mais ou menos no mesmo ritmo das contrações. Quando elas começam você solta o ar o máximo que puder, bem devagar, como se tivesse uma vela acesa na sua frente que não pudesse apagar. E expira assim tanto quanto consiga, depois inspira. Essa expiração dura quase o mesmo tempo de contração e juntando isso com a báscula da bacia para frente, o alívio é imenso. Funciona. Eu sei porque o único momento em que senti mais dor foi durante algumas contrações que eu parei de respirar desse modo, comecei a ofegar, comecei a sentir mais dor, o que me fez ofegar mais e foi muito difícil. A ponto de eu pensar que não daria conta. O que me leva à mais uma coisa importante.
  • Relaxar é fundamental. Parece um contra-senso dizer que é preciso ou possível relaxar. Mas eu percebi que é. Entre uma contração e outra tem gente que até dorme. Até mesmo durante as contrações é possível e necessário relaxar. Quero dizer: quando sentimos dor, nossa tendência é contrair todos os músculos para nos protegermos. Só que essa tensão faz doer muito mais, qualquer um que passe muito tempo numa posição ruim ou com o corpo todo tenso por conta do frio sabe disso. Tudo trava, tudo dói. Agora imagina esse corpo todo rígido na hora do parto. Não dá para achar posição, não dá para respirar, tudo vira desconforto. Nesse curso de preparação ao parto do qual falei, a sage-femme falava muito sobre esse relaxar como uma espécie de entrega, como uma aceitação sua daquilo que está acontecendo com o seu corpo. Ou seja, ao invés de lutar contra e ficar brigando com contrações contraindo mais ainda outros músculos, o negócio é deixar que elas aconteçam. E, para isso, um dos grandes aliados, no meu caso, foi uma banheira cheia de água quentinha. Aqui na França não se pode parir na água pelo risco de infecções e afins (como se fazer mãe e bebê passarem 4 dias em ambiente hospitalar após o parto, obrigatoriamente, não fosse arriscar imensamente todo tipo de infecção hospitalar)… enfim, não se pode parir na água mas se pode ficar na banheira, ou embaixo do chuveiro. E isso, aliado à respiração e aos movimentos da bacia traz um alívio e um relaxamento grandes.
  • Poder fraquejar. Pois sempre tem um momento em que a gente pensa em desistir. Já ouvi mais de uma mulher falar a respeito. E o curioso é que esse momento anuncia que está próximo de acabar. Por isso é bom saber que ele existe e que ele chega, pois com ele chega também o final do parto. Talvez seja um misto de cansaço com medo do desconhecido com espanto por tudo aquilo que está acontecendo. Nessa hora do “não vou dar conta”, ajuda se conseguimos relaxar, respirar, sabendo que teríamos esse tipo de dúvida. Se houverem pessoas em volta que possam nos tranquilizar também quanto a isso, mostrando que estamos dando conta sim, ajuda e muito. Mas fraquejar, é importante que se saiba, não é falhar… o que me leva a um outro aprendizado importante que é…
  • Reconhecer os seus limites. No fim das contas, penso que o parto é uma profunda negociação entre você e você mesma, assim como entre você e o seu bebê. Se passamos a gravidez todas às voltas com medos, inseguranças, reflexões e toda espécie de fantasma que nos ronda a barriga redonda, vindos de nós mesmas e dos outros, acho que é na hora do parto que a gente descobre se vai dar para negociar com tudo isso ou não. Do que estou falando? De desejo. Desejo, para uma psicanalista como eu, não é aquilo que a gente diz que quer, mas aquilo que atravessa a gente como um verdadeiro querer que se impõe, às vezes até de maneira oposta ao que pensávamos que queríamos. Sabe aquela história de dizer que quer uma coisa e fazer justamente o contrário? Então… desejo. Desejo é aquilo que suas ações dizem, é aquele querer que tem tanta força que consegue virar ação. Porque sabemos o quanto é difícil agir na vida e o quanto é fácil falar. Pois é, o desejo dá testemunho daquilo que realmente queremos naquilo que conseguimos fazer. Então isso significa que se eu não tiver o parto natural que digo querer, é sinal que eu não queria? Não necessariamente. Porque existe o nosso desejo e existem os outros e as circunstâncias e entre nosso desejo e sua realização existe um muro de ideologias, de jogos de poder e de violência obstétrica que podem jogar todo o esforço na lata do lixo em dois segundos. Mas se tem algo que eu aprendi com a gravidez e com o parto é que, se não temos como controlar quase nada, nem em nós mesmos, nem nos outros, podemos ao menos fazer a nossa parte de trabalho para tentar ao máximo, naquilo que nos diz respeito, encontrar a maior coerência possível entre nosso desejo, nosso corpo e nossas ações. Se tivermos ao menos isso, tenho a impressão que metade do caminho está feita.
  • Cuidando da cabeça. Do mesmo jeito que décadas de dança me deram uma boa noção a respeito de meu corpo que muito me serviu na hora do parto, mais de uma década de análise também muito me ajudou nessa hora. Isso quer dizer que eu estava zerada, sem nenhum senão, sem nenhum porém? Imagina, tinha um monte de fantasmas na minha cabeça e eu passei a gravidez inteira trabalhando duro comigo mesma para cuidar deles. Isso não significa que a gente chega no parto resolvida, e nem que apenas quem está resolvida chega em um parto natural. Isso significa que saber do próprio corpo funciona tanto quanto saber daquilo que te assombra, justamente porque tudo isso vai contigo para a sala de parto. E é bom saber quem está na sala. Eu tinha muitos medos. Pânico de algo acontecer e eu perder a minha filha. Cheguei a sonhar com isso, que paria sozinha e que ela caia no chão, pois eu não conseguia ampará-la. Quer desamparo maior? O que penso que me ajudou foi ter uma idéia do que me assombrava, não jogar para debaixo do tapete e não ficar no deixa disso, achando que não pensar resolveria as coisas para mim. E saber que esse reconhecimento dos meus medos não me paralisava, nem me impedia de agir mas, ao contrário, me ajudava justamente a mobilizar forças para fazer aquilo que eu julgava importante.

Tive a sorte de uma gravidez tranquila. Mas não foi sorte apenas, e sim um esforço ativo em me afastar de tudo o que me parecia ir contra a possibilidade de viver a gravidez e o parto como acontecimentos naturais, humanos, para o qual estamos, no fundo de nós mesmas, preparadas. Não apenas procurando o melhor lugar possível para minha filha nascer, como tentando me cercar de uma rede de apoio – no meu caso, virtual – que pudesse fazer as vezes daquela voz amiga que precisamos em tantos momentos. Da bolsa que estourou ao nascimento dela, foram quatro horas e meia de trabalho de parto. Um parto rápido, muito rápido para um primeiro filho. Mas aprendi que partos são tão mais fáceis e mais rápidos na medida em que as condições em torno de você são mais propícias e acolhedoras. E na medida em que você seja o mais coerente possível com você mesma. Ou seja, quanto menos você tiver que brigar com você mesma na hora e quanto menos ameaçada você se sinta pelo que te cerca, mais a coisa será fluida. Respirar, movimentar-se, banho quente, tudo isso me fez perceber que eu estava dando conta, de que estava sendo possível, também para mim, parir. Depois de um intervalo de geração, lá estava eu pensando na minha avó que, como eu, tinha vivido tudo aquilo. Cada momento dessa experiência me deixava mais segura para continuar. Não contei com tanto apoio quanto gostaria mas – isso também é importante – quem estava em volta não atrapalhou. E por vezes é tudo de que precisamos, que não nos atrapalhem e nos deixem sossegadas.

Doeu? Sim. Mas muito menos do que eu imaginava e muito menos do que alardeiam por aí. É uma dor totalmente manejável a das contrações e sigo dizendo que não acho que o expulsivo doa. Primeiro porque é como uma grande caimbra, um esforço muscular imenso. Quer dizer, é esforço, não dor. Segundo porque, nessa hora, estamos em algum outro lugar e felizmente já não pensamos mais, apenas deixamos o corpo agir. Não é um sofrimento parir. Nem para você e muito menos para o bebê, que é massageado e levado ao caminho do lado de fora, para entrar nesse mundo e para, finalmente, poderem se olhar nos olhos. Te digo que é uma emoção incomparável.

E aqui vale mais uma observação. Dizem que o protagonismo do parto é da mulher. Concordo. Mas acrescentaria: é da mulher e do bebê. Precisam dois para fazer acontecer. Conversei muito com minha filha durante a gravidez. Não tenho como saber o que ficou disso, nem como foi absorvido, mas eu sabia que ela estava lá e que podia me escutar então, na medida em que ela mexia, eu falava. E entre nossos muitos papos, especialmente no final, eu explicava para ela mais ou menos como é que as coisas aconteceriam. Também não sei o quanto isso ajudou, mas tenho a lembrança de que estávamos bem sintonizadas. E ela nasceu muito calma. Sem choro, sem agitação, sem sobressalto.

O bebê não é parido, ele nasce. Ele faz uma porção de coisas enquanto estamos fazendo nosso trabalho. Ele amadurece os pulmões e envia os sinais de que está pronto, ele desce para o canal vaginal na medida em que as contrações o ajudam. Ele sai, abre os olhos, respira, olha em volta. Minha filha veio para os meus braços e ficou pousada na minha barriga por um tempo. Do lado de fora. Respirando e se recuperando daquele trabalho todo, que era o mesmo que eu fazia. Depois foi examinada na presença do pai e voltou para meu colo, onde ficamos boas horas, ela descobrindo o mamar e eu descobrindo ela. Não pensei tanto a respeito das intervenções sobre ela quanto pensei no que aconteceria comigo. E isso é algo que muitas fazemos, tanto temos que lutar para ter um parto digno que não dá tempo de pensar em como proteger também nosso bebê logo que ele sai do ventre. Uma ou duas coisas desse pós parto eu mudaria ou tentaria evitar. Não sabia na época sobre o colírio desnecessário, por exemplo. E ela teve que fazer um exame dois dias depois que, hoje, eu teria recusado. Então, se você já topou toda essa trabalheira que é parir, aproveite para dedicar um tanto do seu esforço para pensar e tentar preparar também o melhor possível o modo como seu bebê será acolhido.

 

Se fosse parir novamente, iria ao hospital ainda mais tarde do que fui, quase no expulsivo. Ou então teria em casa, no melhor estilo: “puxa, não deu tempo!”. Para burlar o jeito como as coisas são feitas por aqui, com a segurança de que saberia muito bem parir uma criança. Somos nós mesmas que temos que encontrar as brechas desse sistema e fazer valer nossa possibilidade de vivermos o parto de maneira digna e humana. E, prazerosa. Porque parir, e isso pouca gente diz, é muito bom. Tenho uma grande amiga que diz – e eu concordo – que se pudesse paria umas dez vezes. Outra história é ter que criar dez depois. Putz!

Volto amanhã com algumas leituras que muito me ajudaram durante gravidez e parto ou que descobri depois, mas que vão de encontro com tudo o que escrevi por aqui.

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

Parto da barriga

Ela foi dormir, ela e a barriga sapeca, que insistia em se alongar em formatos estranhos, dando ainda bundadas e chutinhos, mesmo estando há alguns dias mais baixa. As contrações desde a sexta-feira eram mais dolorosas, mas irregulares e esporádicas. Ela foi dormir com a barriga grande, pesada, aquela que aprendeu a amar e acariciar durante nove meses, a barriga com a qual conversou ao longo de muitos dias e noites, algumas tantas insones. A barriga que se transformou pouco a pouco até parecer que sempre esteve ali, como se nunca houvesse sido diferente. A gente se acostuma com os saltos, com os sobressaltos, com essa presença de um outro tão perto, com esse conhecer intimamente sem ver…

Uma noite como qualquer outra das mais recentes.

Às seis horas da manhã ela acorda de um susto e de uma sensação, como quem perde o ar. Ela sabe, mas mesmo assim levanta da cama e confirma: a água escorre com ela até o banheiro, trilhando um caminho que a faz sorrir. E, então, ela fica extremamente calma. Sente uma alegria profunda e silenciosa. Acorda ele que, também calmo e um pouco atordoado, tenta secar o rastro às custas de todos os Kleenex da casa. Surpresas esperadas tornam as pessoas engraçadas em suas ações.

Eles avisam a mãe dela, que chegou de longa viagem na véspera. E que se alarma no fuso horário confuso, enquanto eles tranquilamente comem algo e se preparam, jogando as últimas coisas na mala. As pessoas dizem e repetem: rompeu a bolsa, saia correndo para o hospital. Correr para que? Não se trata de uma maratona, nem de se jogar às pressas nas mãos dos experts para que eles cuidem de tudo… Não, ela e a barriga têm outros planos: nascer e fazer nascer uma bebê e sua mamãe.

Da porta ao carro, do carro à maternidade, é a última vez que fazem aquele caminho daquela maneira. Aquele caminho que não mais a reconhece e para o qual ela olha com olhos inéditos, olhos de desconhecido, de silêncio e de calma.

Na maternidade, um primeiro exame: contrações ainda fracas, subir para o quarto e aguardar um novo exame no final da manhã. Sobem ela, a barriga, ele e a mãe dela. Ele sai para voltar dali a uma hora, ela se instala aguardando um longo dia de trabalho de parto.

Uma hora depois, as contrações aumentaram muito em intensidade. Aquelas que começaram pela manhã com a ruptura da bolsa não eram tão doloridas. Ou talvez seja o intervalo entre elas que diminuiu para cerca de dois minutos o que as torna mais intensas. Ela não sabe ao certo, apenas busca respirar profundamente, mudar de posição, bascular a bacia… Pensa no curso de sofrologia que fez ao longo dos últimos meses e que a ajuda agora com isso. Pensa que o objetivo dessas contrações é preparar o útero para ajudar a pequena a sair. Pensa que cada contração aproxima mais o encontro entre elas, entre eles todos. Pensar como uma forma de se reassegurar que esse é o bom caminho. Ela luta um pouco contra si mesma, insiste em que é pensando que vai gerenciar o seu corpo que agora corre solto à sua revelia, ela que sempre dançou a vida inteira e que orgulhosamente sempre soube o alcance de cada gesto seu… Nessa uma hora depois ela percebe que seu corpo age e que ela pode brigar para manter as rédeas ou pode confiar e se deixar levar. No final das contas, essa é uma falsa questão de escolha, porque quem vai levar o jogo é ele, isso é certo. Naquilo que é vital, apenas o nosso corpo sabe o que fazer. Só ele tem a resposta, só ele sabe para onde ir, então é melhor confiar e se abandonar. Constatações desse corpo que rege a cada dois minutos…

A enfermeira aparece para levá-la novamente à sala de parto. Seu útero já se modificou muito, 1 cm de dilatação, ela vai para a banheira de água quentinha que sua mãe prepara, todos ainda aguardando muitas e boas horas de trabalho pela frente. 1 cm por hora, é o que dizem. Ainda mais para um primeiro.

Ele chega. Ela, na banheira, aliviada pelo calor da água, respira em silêncio. Não quer falar, os olho semi-abertos, apenas sensações. Sensações que escapam, que restam, que invadem… Sem pensamentos, apenas estar presente ali e viver tudo aquilo.

Outra hora e meia e aquilo que eram contrações vira outra coisa. Não se trata mais de dor, não é dor que ela sente, apenas uma força descomunal que começa a tomar conta do corpo dela a cada contração. Ela decide que tem que sair dali e se alongar em algum lugar. Ele a ajuda, olhando bonito aquilo que ela vive. Ora segura sua mão, ora lhe massageia as costas, ora partilha seu silêncio… ele espera o tempo passar lentamente. Um tempo em suspenso.

Apenas alongada e a enfermeira obstétrica constata com espanto a dilatação completa. Sai para chamar a equipe e se preparar, mas ela e a barriga já encontram-se em outro plano. Aquela força muscular sobrenatural faz tremer as pernas, faz gritar de dentro da alma… Duas… ela sente a pequena que se aproxima e a faz queimar… Três… Quatro… Ele diz: “estou vendo muitos cabelos pretos”.

A equipe mal tem tempo de entrar na sala e pegar desajeitadamente a bebê que sai por sua própria vontade, no seu tempo. Sai um ombro, sai outro, alguém dia a ela que pegue sua bebê. Ela a pega pelos ombros e traz para a barriga. O lado de fora da barriga de onde ela acaba de sair. Os olhos semi-fechados, ela não consegue acreditar na pequena ali, na sua frente. Ela olha para a bebê, ela olha para ele, ele olha para a bebê, eles se amam, eles a amam… assim… sem dor e com tanta força.

Ele corta o cordão. A pequena acaba de partir da barriga para o mundo. E o melhor é cuidá-la e amá-la para que ela tenha o melhor possível em seu mundo. Ela é cuidada e examinada ali mesmo e volta para os braços dela.

A pequena fica aninhada nos seus braços. Ela mama, ela olha para a mamãe e para o papai. Ela vai para os braços do papai. Ele a veste. Ela olha tudo em sua volta… então é isso? Então são vocês? Então, eis você! Talvez ela estivesse tão curiosa quanto eles por esse encontro, encontro de quem já se conhecia há tantos meses, encontro de quem, desde que chegou, pareceu ter estado sempre ali. Uma evidência.

5 horas e 22 minutos de um trabalho conjunto para vir ao mundo. 5 horas e 22 minutos de uma experiência inatingível para as palavras. 5 horas e 22 minutos para mudar uma barriga em mãe. Uma barriga em bebê. Um homem em pai. 5 horas e 22 minutos de respeito, de escuta, de amor e de coerência com a vida. Com o melhor da vida.

Bem vinda, pequena. Estamos aqui, presentes e em festa para você.