Querer ter um filho…

(version française: ici)

Para mim, foi há cerca de um mês, depois do primeiro ultrasom que encarnou a realidade da gravidez na minha cabeça e no meu corpo. Todo mundo diz… ah, quantos todo mundo diz quando se está grávida, tem todo mundo diz para tudo… Enfim, todo mundo diz que é melhor não anunciar a gravidez antes do final do primeiro trimestre. Porque a maior parte dos abortos espontâneos acontecem no primeiro trimestre e, depois, você não vai querer ficar explicando até para a sua manicure o que houve. Coisas do bom senso, esperar a gravidez “pegar”… Mas você está grávida do seu primeiro filho e quer contar isso para todo mundo. Porque está feliz, porque quer poder falar disso, porque falar, partilhar dá um senso de realidade para aquilo que você está vivendo. Enquanto fica tudo ali na sua cabecinha, a sua gravidez tem a mesma consistência dos seus devaneios com qualquer outro assunto. Quando você conta, você assume o que está acontecendo com você e tudo parece mais real. Além do mais, como imaginar que você vai encontrar com os seus melhores amigos, com sua família, com as pessoas com as quais você sempre dividiu aquilo que era realmente importante para você e, quando eles te perguntarem quais as novidades, você vai falar de outra coisa? Como assim? Talvez isso funcione para as pessoas para quem a amizade e o amor não passem pela conversa, pelas palavras trocadas, pela intimidade cotidiana de dizer o que te vai fundo na alma. Eu sou psicanalista, testemunho diariamente a profundidade delicada daquilo que se compartilha falando, não posso conceber calar, para as pessoas que amo, a intimidade de algo assim.

Mas tinham me dito outra coisa, ainda no quesito quando contar sobre a gravidez. Uma outra justificativa para essa postura de esperar o final do primeiro trimestre, dessa vez dada pela cabala. Seria bom esperar porque, nesse tempo, a alma do bebê está decidindo se quer ou não ficar. Achei bonito quando ouvi isso. Poético. E também um excelente apoio para aquela forma de defesa, que todos nós temos, de não se envolver muito com alguma coisa que sabemos ter o risco de perder. Para que investir no que é incerto, né? Para que se apaixonar pelo carinha que você sabe que vai embora, para que se empolgar com uma gravidez que pode não vingar? Proteger-se de uma possível perda justifica todas as precauções, as distâncias, os investimentos pela metade, a economia de si. E nós somos craques nisso. E quando vemos alguém que se joga demais na vida, tomamos ele por um imaturo, quando não um doido varrido. Só que na vida e no amor não é bem assim que a coisa acontece, né?

Economizar-se é um ato de bom senso e de proteção, mas é também uma avareza, uma mesquinhez consigo mesmo e com a vida. Como a história do melhor vestido que a gente nunca usa que eu falei noutro dia. Essa economia de si que se guarda para o momento de poder se entregar, só que o momento vem e você não consegue porque nunca antes se entregou, passou a vida toda se evitando e evitando qualquer perigo e já não sabe mais como é que faz para fazer diferente. De tanta proteção, você não sabe mais como abrir uma brecha. E sente a dor dilacerante de estar preso em uma carapaça dura, rígida, que te impede de se envolver.

Então, há cerca de um mês, estávamos no auge do inverno aqui e fazia um frio de lascar, um dia cinza após o outro e começou a neve. A neve caindo sobre prédios, ruas e árvores cria uma cena linda. Sempre. Quando neva, tudo fica silencioso e, paradoxalmente, mais quente. Deve ser porque esquenta os olhos e esquenta a alma ver a neve cair. E os flocos têm muitas formas e se assentam delicadamente uns sobre os outros, deixando suas camadas de branco por todo lugar. Eu amo a neve. E fiquei olhando a neve cair pela janela da minha sala. E me dei conta que, se o bebê estava decidindo se queria ficar ou não eu, de minha parte, também poderia decidir. Eu quero que você fique. Eu quero ter esse bebê.

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Guillaume Nery base jumping at Dean’s Blue Hole: http://youtu.be/uQITWbAaDx0

A nova matemática.

Street art - Vila Madalena, São Paulo, Brasil.
Street art – Vila Madalena, São Paulo, Brasil.

1+1=3 agora… matemática renovada. E não é a única conta que você vai ter que aprender a refazer.

Não interessa como você aprendeu a contar o tempo. Relógio, sol, lua, estrelas, ampulheta… horas, minutos, segundos. O tempo entre dois aniversários, dois acontecimentos importantes. O tempo entre um telefonema e um encontro. O tempo de uma sessão de análise. O tempo entre dois tweets, dois sms, uma postagem no facebook… Agora, nada disso tem mais serventia e você vai ter que contar em… semanas. Semanas, veja bem. Antes mesmo de um bebê existir dentro da sua barriga, ele já tem duas semanas. Hein? Alguém teve a brilhante idéia de contar o tempo de vida de um bebê durante a gravidez desde o momento em que ocorreu a última menstruação da sua progenitora. E alguém teve a brilhante idéia de determinar, para fins práticos, que a ovulação ocorre cerca de 15 dias depois do início dessa última menstruação. Ou seja, antes mesmo que você ovule, transe e engravide, pelas contas padrão, seu bebê tem duas semanas. Então, os livros começam todos pela terceira semana, que é quando o sujeitinho aconteceu ali, começou a existir. E colocam, para te ajudar, a idade gestacional e a idade real do bebê: a 3 semanas de gestação, bebê tem uma semana… Como assim? E essas tais de semanas, começam quando? No dia da última menstruação? Mas se você não ovulou com a precisão de um Big Ben londrino, em exatos 15 dias e se sua ovulação adiantou ou atrasou, ou se os espermatozóides do seu amorzinho ficaram ali no bem bom, curtindo uma onda, no quentinho, por um ou dois dias (pois é, bichinhos resistentes esses, quem diria!) você conta a partir de quando? Da data da última menstruação, da data calculada como o dia em que você engravidou… qual é a maldita data?

Ainda bem que alguns sites ou aplicativos – sim, eles existem também para grávidas e gravidez, senhores, tremei!!! – ainda bem que hoje em dia você pode colocar a data da última menstruação em algum lugar do cosmos digital e uma matemática programada também qualquer calcula para você em qual semana de gestação você está. Calcula, claro, sabendo que vai dar errado, porque pode ser um pouco mais para lá ou para cá, assim ou assado… enfim, as imprecisões da vida sempre nos atrapalhando quando precisamos acreditar que sabemos alguma coisa, nem que seja um reles número. E o pior é que cada pessoa com quem você falar vai te perguntar há quanto tempo você está grávida? Todos vão te perguntar com a seriedade e a propriedade de um connaisseur… E se você titubear, ou se arriscar responder: faz um mês, dois, um pouco mais de dois… nossa! Melhor acostumar-se a fazer contas, para dar a impressão que você está totalmente integrada em seu novo e agora único papel daquela que conta em semanas, em luas, em ciclos. As pessoas olham com desprezo e desconfiança para uma mãe que não conta em semanas, não fala sobre enjôos e não acaricia a barriga como quem posa para uma fotografia que retrate a imagem da pura felicidade. Horrorizadas com o “seu descaso”, parece que consideram se vão chamar o serviço social, no mínimo. Você engravidou, agora agüenta o baque, minha filha. Volta para a escola e refaça as contas da vida. E na hora da chamada oral, ao invés de responder direitinho quanto é 7×7, saiba dizer de pronto quanto é 1+1. Em semanas.