Por vezes, o cansaço.

Os chatos de plantão adoram falar, desde que têm notícia da sua gravidez, que você nunca mais vai dormir, ter sossego, uma casa arrumada, tempo para si e por aí vai. Não dá para entender quem adora compartilhar o pior, ou te imaginar na lama tanto quanto eles… Enfim… Não é sobre isso que escrevo hoje, não é um “ei, vocês têm razão”, porque não penso que eles tenham. Se ter filhos fosse tão horrível assim, tão mais cheio de horrores do que de maravilhas, por que a humanidade continuaria existindo, não?

Não, quero escrever sobre o cansaço, como para conferir-lhe legitimidade nesse mundo cor-de-rosa que é a maternolândia. Porque, se por um lado todo mundo não para de te falar de tudo o que você vai perder, numa negação ignorante de que viver envolve escolhas e, consequentemente, implica perdas, paradoxalmente te exigem uma felicidade constante, sorriso estampado na cara e satisfação em permanência. Estranho, não?

Então nasce o rebento e você entra naquele estado segundo, naquela dimensão outra que é a dos primeiros meses com um bebê. Sem nem ao menos uma pausa para respirar, você sai do parto sendo mãe e tendo que dar conta de um universo de mamadas, fraldas, banhos, cuidados, carinho, colo, choros e afins. É um impacto mudar de estatuto em um segundo e ter que dar conta de uma série de coisas que se tornam realidades na sua vida. É um impacto o peso da responsabilidade de ter alguém totalmente dependente de você. E no início você está tomada pela occitocina, pela emoção do parto, pela enormidade desse acontecimento e você nem pensa. Apenas age a vai fazendo, como se sempre tivesse sido assim.

Curioso como um filho, no instante que chega, abre um rasgo na nossa vida que torna tudo até ali passado, outro tempo, outra vida. É uma mudança radical e você não consegue, no intervalo de um instante, conceber sua vida como se não houvesse existido. Aquela pessoa chega e se instala naquele lugar daquilo que é essencial. Como o ar que você respira, você não se pergunta muito. Apenas respira e toma o respirar como parte da vida, uma evidência. Ter filhos é assim: uma evidência. Basta um segundo e sua vida já não pode mais ser imaginada de outra maneira.

Em meio a essa enxurrada do que talvez possamos chamar de amor, você vai vivendo aquilo tudo que é novo e que, ao mesmo tempo, parece que sempre existiu. E, nesse estado meio alterado de consciência, por conta das emoções, do ritmo, das demandas, nem se dá muito conta dos dias e das noites, da passagem do tempo. Tudo acontece diferente, a rotina é pautada pelos acontecimentos, pelas necessidades do bebê, por choros e sonos. Até que vem o cansaço, o corpo assustado com o sono entrecortado, com os ritmos diferentes, com as caminhadas, com os tempos sentada amamentando, com o isolamento do mundo, com a imensa dedicação, com a imensa demanda, com tudo o que se dá sem mesmo saber que tinha … Um corpo alquebrado que, em alguns momentos, se junta à cabeça em plena exaustão.

E você chora, chora esse esgotamento do corpo e da alma, chora esse desfazimento de si, essa mudança de vida, essa troca de pele, esse desconhecido que se instaura no centro da sua vida. Chora de amor, chora de não saber, chora de insegurança, de medo pelo futuro, de preocupação, de querer fazer o melhor. Chora pelos choros todos dessa pequena que chora.

E ninguém fala disso. Não a fala jocosa e destrutiva do “você vai perder sua vida quando tiver filhos”, mas uma fala sobre esse cansaço, esse deslocamento, essa desterritorialização de corpo e alma. E você também não fala nada, ameaçada pela pressão de estar sempre feliz com a maternidade. Dizer que tem vontade de sair correndo algumas vezes pega mal, né?

É verdade que cada sorriso, cada acontecimento, cada descoberta, cada conquista desfazem como que por magia esse esgotamento e enchem de uma energia feroz os pulmões, os músculos e o cérebro, deixando-nos prontas para tudo. Até o próximo esgotamento, que se dissolverá em seguida em alegrias impensadas, que culminarão em alguma exaustão, que… Uma coisa não anula a outra, o amor, a felicidade, o estado de graça, a alegria da maternidade não impedem esse tilt no corpo e na cabeça. Tudo mudou, o ritmo da vida se alterou. É mesmo cansativo. É legítimo cansar-se. É autorizado. E não muda em nada a beleza desse momento. É tão somente pelo fato de sermos tão humanas, nós, as mães. E humanos também cansam.