Imagens

Com a publicação do post como convidada do Confessionário do bebe.com.br veio o pedido de uma imagem que acompanhasse o texto, de preferência minha com a minha bebê. Depois de muito pensar, enviei uma de minhas favoritas, em que ambas aparecemos de costas. O carinho, a afeição, a ternura e o amor estão todos ali, mas nossas caras e, especialmente, a da minha filha, não.

Quem acompanha o blog há algum tempo já reparou que eu nunca coloco fotos nossas. Nem mesmo o nome da bebê eu menciono. Isso não ocorre apenas aqui. No facebook, em que tenho uma página pessoal, se publiquei quatro ou cinco fotos da minha filha desde que nasceu foi muito. Por quê?

Frequento a internet desde que ela surgiu. Sou do tempo em que existia máquina de escrever e que para se comunicar com as pessoas usávamos telefone (fixo) ou carta. As informações levavam séculos para chegar, se comparadas com os dias de hoje e uma boa pesquisa bibliográfica em uma boa biblioteca era um tesouro precioso, pois encontrar informações levava tempo e demandava muita paciência. É, sou velha e vi a internet nascer. Assim como todos os antepassados do skype. E os antepassados do facebook. E do instagram. E do twitter. E das clouds. E por aí vai. Você já entenderam, eu sou velha, experiente e blá blá blá. Mas não tem nenhuma lição de moral aqui, vão vendo.

Eu vi todas essas revoluções da web surgirem e posso dizer que participei de quase todas. Difícil nomear um site do qual não participei, uma rede social, um protocolo de trocas P2P. Porque sou curiosa e, mais ainda, porque vejo esse tal mundo virtual como algo interessante e cheio de potencialidades formidáveis, algo explosivo e revolucionário mas, também, capaz de gerar verdadeiras bolas de neve de catástrofes.

Pouco a pouco fui entendendo que, na web, nada morre. Tudo fica para sempre e isso pode ser uma mão na roda quando você está procurando alguma informação sobre uma música meio obscura que escutou uma vez na vida, num festival nos anos 2000. Mas pode ser um verdadeiro pesadelo quando se trata de algo que, com o passar do tempo, você preferia esquecer. Eis aí o problema da net: quanto mais ela se expande e quanto mais ela se aprofunda, mas ficamos impedidos dessa função tão necessária para todo o ser humano: esquecer, apagar, deixar para trás. A net não nos permite. Quando me dei conta disso, mesmo continuando ativamente nesse mundo virtual, comecei a pensar melhor naquilo que gostaria de ter publicado a meu respeito. Não, isso não quer dizer que tenho algo a esconder. Isso quer dizer que tenho necessidade – como todo mundo – de privacidade. E privacidade não rima com esse mundo público, explícito e escancarado aqui.

Quando fiquei grávida, a necessidade que tenho de escrever atravessou também essa experiência e o blog surgiu. E tem existido desde então com posts mais ou menos pessoais. Mas procuro sempre manter aquilo que julgo um limite razoável entre desvelar e refletir. Pois, até por vício de profissão, sei que muitas vezes falar de si – no caso, um terapeuta que fala de si durante a sessão com o paciente, ao invés de deixar que ele fale – pode ser mais por exibicionismo do que servir a algum propósito útil. Então, até onde ir?

Mais do que isso, no entanto, foi a preocupação que nasceu com o nascimento da minha filha de uma superexposição dela. Vejam bem: eu conheço uma centena de blogs de maternidade que são super pessoais, que narram o cotidiano de mães, bebês, famílias, com fotos, fatos e tudo o mais. Conheço e adoro alguns deles. São bonitos, são tocantes. Podem servir de exemplo, de consolo, de inspiração. Mas eu não tenho essa pegada porque, como disse, me preocupo com outras coisas. E na maior parte das vezes me interesso mais em discutir idéias do que fatos. Deve ser outro vício de profissão, de acadêmica, de pensadora. Enfim.

O que me preocupa é que as gerações que nasceram depois da internet têm uma relação totalmente visceral com ela e tudo parece tão natural e evidente como alguém como eu jamais poderá sentir. E se isso é interessante, talvez bom e cria pessoas novas, com novas subjetividades e novas possibilidades, também cria novos riscos e novos perigos. E a superexposição é um deles.

Nem vou entrar no mérito das muitas notícias que lemos todos os dias de informações coletadas na internet e que servem para sequestros, assaltos, pedofilia, bullying entre coleguinhas de escola, demissão de emprego por justa causa e tantas outras coisas desagradáveis ou até mesmo trágicas que podem acontecer como consequência de rastros que deixamos aqui e ali, coisas das quais esquecemos, mas que a web não deixou se apagarem.

Com uma filha pequena, sinto que tenho a responsabilidade não apenas de protegê-la como também de não contribuir para que, desde o começo da sua existência, ela seja super exposta em suas mil caras, humores e experiências, a ponto da sua vida virar um livro aberto para todo mundo que quiser saber. Porque pode ser perigoso e, mais ainda, simplesmente porque não me acho no direito de decidir isso por ela.

Não me acho no direito de decidir quem vai acompanhar a sua vida com riqueza de detalhes, nem tudo o que vai ser dito a respeito do que ela vive. Novamente, não se trata de uma crítica a quem o faz. Já disse que alguns de meus blogs favoritos e de minhas blogueiras mais queridas têm justamente esse perfil. Estou apenas dividindo uma impressão minha, que é ainda mais forte naquilo que vejo exposto nas redes sociais do que em blogs de maternidade, por estranho que pareça.

Vocês podem me dizer que, contraditoriamente, eu escrevo sobre maternidade e muitas vezes escrevo sobre minha filha. E é verdade. E cada qual nessa blogosfera materna tem que descobrir qual é a sua fronteira entre público e privado, entre o que pode ser dito e o que deve ser silenciado. No meu caso, mais do que as palavras, a imagem é aquilo com que mais me preocupo.

Temos uma relação interessante com a imagem na nossa época. Se a palavra desliza, pode ir e vir e ser tomada como interpretação, licença poética, meia verdade, a imagem tem para nós uma rigidez muito maior: acreditamos que as imagens não mentem, que são a tradução literal de alguma verdade. Isso não é por acaso: desde que a fotografia surgiu ocupou a função de transcrição fidedigna da realidade. Como se aquilo que aparece na foto fosse o real, a tradução de um fato. Não é isso que concluímos quando folheamos revistas de celebridades ou assistimos aos jornais televisivos, que aquilo que eles mostram é real? Se com a palavra temos alguma condescendência, com a imagem nos jogamos sem nos questionarmos no reino da verdade absoluta. Eis algo da mentalidade de nosso tempo que ainda não se modificou, mesmo que hoje em dia tenhamos acesso à informação de que imagens são manipuladas, são leituras e são interpretações parciais: nós acreditamos nelas. Mesmo com photoshop. Então, as imagens de família, a meu ver, expõem de maneira diferente e mais intensa do que as histórias de família porque, com elas, achamos que estamos diante da verdade daquelas pessoas. E isso, na internet, se congela e se eterniza para sempre, essa verdade. Será bom para nossos filhos que tantas verdades absolutas sobre eles já estejam congeladas em imagens antes mesmo que eles aprendam a falar?

É claro que mesmo fora da web nós, mães e pais, falamos, mostramos fotos, contamos as peripécias. Mas aqui as coisas podem atingir um alcance que dificilmente teriam do “lado de fora”, a menos que fôssemos celebridades perseguidas por paparazzis 24 horas por dia. Para todos os outros, a benção do anonimato, da privacidade e de passar incógnito. Não é um bálsamo em tempos de tanta exposição?

Não tenho ilusões: minha filha vive nesse tempo e vai se relacionar com esse mundo, dentro e fora da net. Mas não será mais justo deixar que ela como pretende fazer isso decida quando tiver condições?