Desacorçoada – ou como parei de gritar com a minha filha

Algumas vezes, quando perguntava à minha avó como ela estava, ela respondia: “ah, hoje estou desacorçoada…”, o que era algo entre o desanimada e o triste e sem esperanças, sem precisar assumir nenhum deles. Desacorçoada era o bom termo para ninguém encher o saco dela dizendo que ela devia estar bem ou pedindo explicações de seu desacorçoamento. Desacorçoada ela ficava em paz para estar triste, sem esperanças ou desanimada o quanto quisesse. Ou precisasse.

Então, eu andei desacorçoada nos últimos tempos. Não o cansaço de ser mãe de dois, não a gastura do verão de dias quentes daqui do sul da França, que eu nunca gostei de verão, mesmo sendo brasileira… não, desacorçoada mesmo. Eu explico.

Nessa história de educação com apego, que é simplesmente você tentar educar os seus filhos de forma respeitosa, tratando-os como seres humanos, respeitando suas vontades, seus limites, suas necessidades e tudo o mais que o respeito a um ser humano inclui ou deveria incluir, muitas vezes nos vemos confrontadas com um desafio hercúleo que é aquele de tentar dar o que não tivemos: como educar sem violência se não temos nenhum registro disso na nossa própria experiência?

Dizem que ninguém dá aquilo que não tem e estou convencida de que aquilo que temos para dar se constrói ao longo de nossas experiências, de nossa história, de nossa vivência, especialmente da infância e da primeira infância. O que temos para dar se constrói na dependência dos outros, do que recebemos, da forma como fomos recebidos nesse mundo e a ele fomos apresentados. Então, o que podemos dar ao mundo será sempre um bom tanto em consequência disso que tivemos desde o início. O que não quer dizer uma condenação, como se uma experiência ruim pudesse colocar absolutamente tudo a perder. Felizmente, não somos apenas uma única experiência, quer ela se chame nascimento, amamentação ou qualquer outra coisa de igual importância nesse começo de vida. Mas… que conta um bocado, conta.

E daí a gente vira adulto e decide que quer dar um monte de coisas aos nossos filhos, o que significa, nesse meu contexto aqui, não materialidades, mas dar um certo tipo de criação, apresentar o mundo de uma certa maneira, receber e se relacionar com essas crianças de um certo jeito que é o que acreditamos ser o melhor para nós e para eles… o mais ético, o mais respeitoso, o mais cuidadoso, o mais amoroso… E aí a gente descobre o quanto é difícil. E um dos motivos – e atentem bem ao “um dos”, porque não é o único – é que possivelmente é nessa hora de querer oferecer algo que a gente se dá conta que não sabe muito bem de onde tirar.

Vejam bem, eu não vou fazer aqui um relato de uma infância infeliz e violenta, porque não é esse o caso. Existem infâncias muito mais radicalmente violentas e complicadas do que a que eu vivi, então é sempre importante nuançar as coisas. Digamos que, na minha história, um bom resumo estaria na frase ouvida à exaustão durante toda a minha infância “mas criança não tem querer”.

Criança não tem querer e a pessoa aqui foi virar psicanalista, sacaram? Na psicanálise, o que move o ser humano, do primeiro ao último suspiro é justamente o querer. Sem desejo, não há nada que se possa chamar de vida ou de humanidade em uma existência. Que tal? Ah, para evitar equívocos, em psicanálise, a primazia do desejo não significa dizer que o ser humano faz tudo o que ele quer, ou que ele faz tudo o que for preciso para alcançar o que quer. Seria assim – e muitas vezes é mesmo – se não fosse por conta de outra coisa linda que o ser humano tem que é a capacidade de renunciar ao todo de seu desejo realizado em prol de uma coletividade. Ou melhor, não é que cada humano generosamente renuncia ao seu desejo totalmente satisfeito em prol de satisfações parciais partilhadas por todos, que nós não somos esses seres altruístas não. Mas somos forçados a isso pelo fato de termos inteligência o suficiente para perceber que esse desejo que tenta se realizar a qualquer preço é sinônimo de vencer pela força e subjugar os mais fracos. E, nesse outro jeito de funcionar do mundo, haveria apenas um mais forte que subjugaria todos os demais, ou seja, só um que teria tudo o que deseja enquanto que os outros ficariam com aquilo que eu ouvia quando criança, sem ter querer. Freud, Totem e Tabu. Leiam, é um belo mito das origens, no sentido mítico mesmo, daquilo que fundaria um pacto civilizatório. Pois bem.

Todo mundo tem querer, até mesmo as crianças. E os velhos. E os loucos. E os deficientes de todos os tipos. Isso é, em suma, o que aceitamos quando aceitamos viver em sociedade. Todos têm querer e então não vai dar para todos terem tudo o que querem. Então vamos compartilhar esses quereres, e que cada um realize um bocadinho do seu. O que é melhor do que o domínio do mais forte sobre o mais fraco. A não ser para o mais forte que pode facilmente esquecer que mesmo no mundo dos animais bem mais inteligentes que nós, como por exemplo entre os leões, o mais forte um dia também envelhece e vai ser vencido pelo próximo mais forte e assim por diante numa tirania sem fim até o fim dos tempos. Melhor todo mundo ter um pouco e uns cuidarem dos quereres dos outros com zelo, respeito e consideração, não? Contemplando o que é possível, ajudando a lidar com o que é da ordem do interdito ou do inalcançável.

Que tal? Parece pouco? Digamos que talvez o melhor dessa nossa civilização tenha se baseado nesse acordo. Por quê? Porque se a gente não tem mais que passar a vida inteira brigando e se matando para ver quem é o mais forte e quem é que pode ter o seu querer, podemos nos dedicar a coisas, digamos, mais interessantes como, por exemplo, produzir cultura, criar história, inventar tecnologia… em suma, melhorar nossos modos e meios de vida. Sacaram? Se não precisa se matar, dá para fazer outra coisa. Inclusive amar, viajar, fazer nada, ler um livro, inventar novos modos de preparar batatas, ou criar o futebol e o rugby… you name it, amiguinho. Porque se a gente for parar para pensar que o que entendemos por civilização e cultura é uma criação humana e que isso depende de que o ser humano possa se dedicar a inventar modos e meios de vida, a gente logo se dá conta que abrir mão de um tanto da nossa realização de desejo em prol de tantas conquistas coletivas que melhoram a vida de todo mundo pode ser um baita negócio, certo?

Certo e errado. Porque infelizmente nós seres humanos não somos tão lisos e tão limpos assim. E se aceitamos de bom grado as vantagens desse pacto civilizatório e se ficamos bem contentes em poder tomar um bom vinho, em assistir o último filme do Almodovar ou em poder contar com todos os recursos da ciência e da medicina para tratar de uma doença… paradoxalmente não ficamos assim tão convencidos nem satisfeitos de que isso deva supostamente beneficiar a todos igualmente. Em outras palavras, estamos felizes que a civilização pague pelos nossos benefícios sociais, pelo nosso carro novo na garagem, pela nossa garagem, pela nossa viagem pra Zooropa nas férias de julho… mas começamos a nos sentir bem explorados se essa tal civilização começa a querer pagar também pelas cotas nas universidades, pelo bolsa família, pela demarcação das terras indígenas, pela criminalização da homofobia ou pela legalização do aborto… E de repente começamos a sentir que essa tal civilização é injusta e que deveríamos dobrar os acordos aos quais todos cederam lá em algum ponto inicial e mítico em prol de uma “justiça” mais para o nosso lado, mais a nossa maneira. Eis o retorno insidioso e sorrateiro da lei do mais forte que, na verdade, parece ter sempre funcionado para colocar um grupo de humanos contra outros, ou para federar um tanto de humanos contra o restante, como nos contam todas as guerras, conflitos e explorações de uns povos por outros ao longo da história. E como constatamos com amargura nos tempos recentes, essa tal lei da força nem tinha sido tão deixada de lado assim, ao menos quando se trata de Brasil, esse nosso país onde aparentemente o tal pacto civilizatório foi apenas de fachada, um truque, uma gambiarra qualquer que alguém fez, muitos acreditaram, mas que era “de mentirinha”. Coisa de gente sem lei. Ou coisa de quem nunca se preocupou em pagar o preço de ter uma.

Mas calma que estou me desviando sem me desviar realmente dessa história de desacorçoada, criação com apego e criança não tem querer.

Pois bem, quando começamos a tentar educar os nossos filhos de uma maneira mais respeitosa e menos violenta é quando a porca torce o rabo e quando nos damos conta do tanto de violência mais ou menos declarada, mais ou menos subterrânea à qual fomos submetidas ao longo de nossa existência, muitas vezes sem percebermos. E não sabemos de onde tirar um modo não violento de lidar com os filhos.

Criança não tem querer. Uma expressão da vontade, uma expressão do simples fato de existir que nunca teve lugar nem legitimidade. Criança não tinha nenhuma autorização para existir enquanto ser querente. Criança não tinha nenhuma autorização para simplesmente existir. Poderia ser pior e é para muitas crianças que são literalmente massacradas em suas existências de todos os modos possíveis. Física, moral e psicologicamente. Em nome de justificativas toscas como “educação” ou “amor”. My ass.

Criança não tem querer pode se tornar, num piscar de olhos, tapas, beliscões, objetos arremessados e, ainda noutro piscar de olhos, palavras duras, especialmente quando vindas de uma mãe ou de um pai, aqueles seres quase divinos que toda criança acredita serem os portadores da verdade: “você é chata”, “você é egoísta”, “você é estranha”, “como você é boba”, “você é feia”, “você não é bonita, mas é inteligente”… Daí para se olhar no espelho e começar a se achar estranha, feia é apenas mais um piscar de olhos. E que criança não chorou a dor de se ver aquilo que o adulto amado diz e de se ver de repente algo que não tem valor, algo que não serve, algo que pode ser deixado de lado? Choro, dor e medo… como é que faz para ser alguém que esse adulto ame?

Pouco a pouco, essa criança vai acostumando com esses dizeres que são ela, com essas ações dirigidas a ela. Existe algo errado e esse algo é ela. Ela é que tem que mudar, melhorar, ser alguém amável aos olhos do outro. O que acontece? A criança agora precisa ser para alguém, precisa agradar alguém para ser amada. Ou ao menos foi o que a fizeram acreditar. E quando a gente começa a precisar ser para o outro, acabou-se a nossa condição de ser coerente com a gente mesmo. Ensurdecemos para os nossos quereres, pois temos que saber o que o outro quer. Para atendê-lo e, quem sabe, termos seu amor em troca. Uma criança que não tem querer é uma criança que deveria estar conformada a apenas querer atender o querer do adulto. Como se ela tivesse sido criada para isso. No dia em que ela crescer, quem sabe, poderá querer, quem sabe até poderá querer subjugar um outro alguém que atenda aos seus quereres. Mas o que pode ela querer se ela nunca teve querer nenhum? Como ela vai saber o que quer?

O jeito como somos educados parece que nos atravessa quando temos filhos, mesmo à nossa revelia. E nos pegamos fazendo com os pequenos aquilo que fizeram conosco, repetindo os mesmos mantras, respondendo com a mesma violência. E então um dia minha filha diz que quer alguma coisa, em alto e bom tom. E uma fúria cega toma conta de mim e eu digo não apenas por dizer e ela insiste e eu grito. Grito mesmo toda a minha raiva. E penso “criança não tem querer”. E cada uma dessas palavras cheias de ódio dessa frase odiosa quase saem pela minha boca. Mas eu consigo conter cada uma e engolir cada letrinha de cada uma delas e saborear o gosto horrendo dessa sopa de letras e palavras até elas borbulharem no meu estômago, gerando um asco imenso por mim mesma, por cada uma dessas palavras, por cada um dos gritos que já escapou da minha boca em direção à minha filha, por cada vez que explodi.

E então vem a notícia podre da menina que foi estuprada por cerca de 30 homens. Não vou colocar o link aqui, todo mundo está sabendo. E ao absurdo desse acontecimento se junta o impensável dos comentários das pessoas. Das pessoas que pensam que o que quer que seja no comportamento, nas palavras, na história, nas atitudes dessa menina poderiam justificar a violência à qual ela foi submetida. Todo o espectro das obscenidades do “ela pediu”, “ela não disse não”, “ela era isso ou aquilo”… todo o desfile de horrores que os homens e mulheres podem demonstrar numa situação dessas. Homens e mulheres se comprazendo em pensar que a violência contra essa menina era merecida. E foi aí que eu fiquei realmente desacorçoada.

Eu poderia escrever uma tese aqui e talvez algum dia a escreva, mas o importante a reter é que, ao ler essa notícia, pensei imediatamente na minha filha. Poderia ser minha filha, não poderia ser minha filha… quem não pensa isso tendo uma filha num mundo como esse? Mas não apenas isso. Pior que isso. Pensei, percebi, talvez pela primeira vez, que eu poderia ser uma influência direta para que esse tipo de violência acontecesse com a minha filha. De que modo? Gritando com ela.

Nossa, Alessandra, agora você viajou, nada a ver isso que você está falando. A menina era uma vagabunda, favelada, drogada, tua filha é uma criança, um anjo, uma graça.

Pois é, minha filha é tudo de melhor que existe nesse mundo. E cada vez que eu grito com ela, o que talvez ela aprenda é que “a mamãe me ama” e “a mamãe grita comigo”. E talvez com isso ela aprenda que eu fazê-la se sentir mal e triste faz parte do amor. E talvez ela aprenda que amar e fazer sentir mal e triste são duas coisas que andam juntas. Afinal, se até a mamãe faz… Talvez ela aprenda que é normal ela ser tratada com gritos. E daí ela poderá achar normal ser tratada com outros tipos de violência. E talvez ela poderá achar normal ser xingada, menosprezada, insultada. Ou até mesmo apanhar. E poderá achar que tudo isso vem junto com o amor. Ou que se isso existe numa relação qualquer, existe nesse mesmo lugar ou nessa mesma pessoa amor também. Talvez isso faça com que ela comece a aceitar ser tratada menos bem do que poderia reivindicar, talvez ela comece a aceitar pequenas violências cotidianas, pequenas ofensas, pequenas feridas. E talvez ela comece a esperar no meio disso as manifestações do amor que viriam junto. Talvez minha pequena vá começar então a mendigar os sinais de amor das pessoas por quem ela tem carinho. E talvez ela vá aceitar qualquer pequena migalha que essas pessoas lhe ofereçam. E talvez ela não consiga mais nem perceber que são migalhas envoltas em tudo isso que é violência, mas para o que ela nem atribui mais esse nome. Pois aprendeu na pele que era assim. Que a vida era assim. Que o amor era assim. Que as relações são assim. E então quando ela souber da notícia de uma menina estuprada, talvez ela pense que nem foi estupro. Ou que a menina mereceu, porque não era boa o suficiente para ser tratada com respeito, cuidado e amor. Como ela mesma. Ou como qualquer outro ser humano.

Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com ela é normal e nem é violência? Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com o outro nem é violência, ou é uma violência justificada? Pois é, no caminho a conta-gotas que leva a essa normalização que um dia pode fazer com que minha filha ache normal que a tratem de forma violenta e que meu filho ache normal ser violento com as pessoas está, bem lá no comecinho de tudo, entre outras coisas, eu gritando com eles. Será que não? Se eu fizer um apanhado da minha vida e das pequenas violências cotidianas do “criança não tem querer” que me ajudaram a tornar-me uma pessoa que, durante muito tempo, não entendeu violência como tal e que achou normal ter sofrido vários tipos dela, sempre na espera de ser amada, então sinto dizer que minha hipótese tem um grande risco de estar correta. Se for juntar à minha própria história outras histórias de outras mulheres que passaram a vida aceitando migalhas e sofrendo abusos os mais variados sem nem ao menos entendê-los pelo que são – abuso e violência – então realmente minha hipótese parece estar bem, bem certa.

Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres que carregam na sua história um monte de insultos, de desvalorizações, de humilhações, de tapas, de abusos, de estupros dentro de relacionamentos que deveriam ser amorosos… Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres taxadas de putas, de vagabundas, de não merecedoras de cuidado, respeito e amor como se fosse qualquer coisa nelas que autorizasse a violência dos outros sobre elas. Qualquer coisa no que elas são. Ou fazem. Ou dizem. Ou vestem. Ou pensam. Ou defendem. Como se a violência fosse válida para todo mundo que não se inscreve nos parâmetros traçados por aquele que decide quem é merecedora de violência ou não: o mais forte. Isso é a barbárie. Isso é a lei sem lei da violência. Da mesma violência dos gritos, das palmadas e das humilhações. Imaginar que é isso que vai educar e proteger nossos filhos é algo que só pode parecer lógico na cabeça de um imbecil ou de alguém para quem a violência foi dada a conta-gotas, desde o berço, até essa pessoa deixar de vê-la como tal. Essa pessoa que ficou cega para a violência sou eu, é você, é toda uma geração criada dentro dessa lógica insensata de que educar é adestrar e de que um tapinha não dói. Nunca. Até o dia em que o tapinha te mata e daí é tarde demais para perceber que se tratava de um tapa.

Mas eu sobrevivi! Sei, que bom, eu também. E conheço gente que sobreviveu a coisas que talvez teriam matado a mim e a você. E qual é a sua proposta? Que criemos mais uma geração de sobreviventes que, como nós, não saibam mais como resolver as coisas a não ser no grito, na porrada, até chegar à submissão do outro? Mais uma geração que, como a nossa, seja capaz de rir e de arrumar desculpa e justificativa para 30 caras estuprando uma menina? Esse é o projeto para nossas filhas e filhos? Isso é o melhor que podemos oferecer para eles?

Olha, se esse é o seu projeto e se isso te basta, sinto muito, mas não estamos nessa juntos. Eu vou tirar alguma coisa de onde não tive e vou aprender, nem que seja nesse embate cotidiano doloroso comigo mesma e com os meus próprios limites, a poder oferecer outra coisa à minha filha. E ao meu filho, que também está crescendo e que também corre o risco dos gritos. Eu parei de gritar com a minha filha porque é impensável dar mais um passo que seja na perpetuação desse círculo vicioso de pequenas imensas violências cotidianas destruidoras de esperanças e de subjetividades inteiras. Chega, não dá mais.

Então, a partir de hoje, aqui em casa criança tem querer. Já tinha antes, mas agora digamos que a coisa se radicalizou e acabou a gritaria para tentar abafar os quereres das crianças que nos causam espécie. E a gente vai vendo o que faz com isso. Com os quereres deles e com os meus ranços de respostas violentas. Porque a violência é como um vício e para se desintoxicar tem que fazer como os alcóolicos anônimos, um dia de cada vez, uma crise de cada vez, uma situação difícil de cada vez.

Para aqueles que vão entender dessa pequena reflexão que a idéia é, consequentemente, deixar a criançada fazer o que quer até se tornarem tiranos, mimados e começarem a mandar nos adultos, sugiro uma boa encerada na cara de pau do seu cinismo, um pouco de estudo e que dêem uma olhada no excelente documentário: Si j’aurais su… je serais né en Suède. E um pequeno disclaimer, só para te ajudar.

Veja, admitir o óbvio de que toda e qualquer criança e até mesmo os bebês recém nascidos têm querer não significa dizer que todo e qualquer querer de um bebê, de uma criança, ou até mesmo de um adulto poderá ser atendido. Isso só existe nas baboseiras hollywoodianas que insistem em vender para a gente que querer é poder. Ideologia marotinha que serve apenas para você acreditar que se você quiser algo, você consegue e, se não conseguir, o defeito é seu, e não um problema de uma sociedade feita para poucos conseguirem muito e o resto morrer tentando, ok? Fora desse mundo de conto de fadas que serve para o que serve isto é, vender sonhos impossíveis, com ênfase para o verbo VENDER, a questão dos quereres e de seus limites é um tanto mais democrática.

Existem quereres possíveis e existem quereres impossíveis para todos. Ao menos em uma sociedade que se pretenda civilizada. E não estamos falando do querer ter e do querer consumir, ok? Estamos falando do querer amor, querer cuidado, querer afeto, querer proteção, querer conforto, querer beleza, querer silêncio, querer presença, querer privacidade, querer atenção, querer ajudar, querer fazer, querer saber, querer aprender, querer autonomia, querer espaço, querer proximidade, querer respeito… todos os quereres ligados ao que é mais básico e vital para cada ser humano. São esses quereres que são possíveis, impossíveis, às vezes possíveis, às vezes impossíveis, parcialmente possíveis, momentaneamente possíveis… E talvez seja isso que os pais deveriam poder ensinar aos aos filhos. Que a gente quer e precisa de muita coisa, muita coisa que no fundo parece até bem simples e óbvia. E que o Freud lá de alguns parágrafos acima resumiu em outro livro como: a gente quer, no fundo, no fundo, ser feliz. A gente quer muito, quer mesmo, com toda força. E às vezes não dá. E é um aborrecimento. E a gente aprende a fazer algo desse aborrecimento. E a continuar querendo. E a tentar outras vias. E a deslocar para outros quereres. E realizar algumas vezes esse querer. E noutras não.

E esse é o erro ou o cinismo puro e simples de quem pensa que educar é algo que se aproxima de um adestramento e que prefere se apegar no que concebe como “dar limites”, como se os limites não estivessem aí postos para toda e qualquer pessoa. Quer coisa mais limitada e limitante do que ser um bebê e ter que se haver o tempo todo com a frustração de ter seus quereres atendidos em permanência por um outro que pode estar ali para responder ou não, que pode entender ou não, que pode estar a fim ou não? Se tem alguém que sabe bem dos limites são os bebês e as crianças, acreditem. Esses pequenos que não podem nem trocar uma fralda de cocô sozinhos e se livrarem do desconforto de um bumbum molhado e assado. Então, você acha que precisa mesmo ensinar para eles que existem quereres que eles não vão poder realizar? Você acha mesmo que eles não constatam isso todos os dias, do mesmo modo que você?

Pois é, uma hora dá um insight e a gente percebe que isso não faz nenhum sentido e que qualquer ação violenta direcionada aos nossos filhos sob pretexto de “educação” deve ser urgentemente repensada. E aqui não falo apenas em palmadas, mas em gritos, humilhações, palavras ofensivas, xingamentos e todo tipo de desvalorização. Violências de vários tipos, nenhuma sem consequências. Elas fazem parte de um mundo que eu, pessoalmente, não faço nenhuma questão de transmitir para a próxima geração.

Em tempo: todo o meu respeito, meu carinho e meu cuidado a essa menina que sofreu tão abominável violência desses 30 dejetos. Você é uma pessoa tão digna de respeito, cuidado e afeição quanto eu, meus filhos e tudo quanto é gente que eu conheço e amo. Você não é mais, nem menos do que nenhum deles. E eu lamento no fundo da minha alma aquilo que você viveu. Conte comigo e com o meu apoio.

 

 

Intermezzo – o tal estatuto do nasciturno

Desculpem o intermezzo, aparentemente não existe nenhuma relação entre o que vou escrever e o tema deste blog. Mas penso que existe sim e que é importante nos posicionarmos, especialmente frente a algo tão ultrajante quanto esse tal estatuto. Porque eu pude escolher ser mãe. E fico enojada de que queiram aprovar ainda mais uma lei no Brasil para que uma mulher não possa escolher o contrário. Vejamos.

Há algum tempo atrás, acreditei ser testemunho de uma das coisas mais perversas que um ser humano pode fazer: aqui na França, por ocasião da apresentação do projeto que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, um movimento se levantou contra de forma violenta e preconceituosa. Safadamente intitulados “La manif pour tous” – “A manifestação para todos” – os grupos ali congregados passaram meses e meses a pseudo pleitear um referendum para que a tal lei fosse aprovada. Queriam que “o povo” fosse consultado, como se ele já não tivesse sido ao ter eleito um governo que trazia no seu projeto de governo, de forma explícita, a defesa dessa questão da igualdade de direitos quanto ao casamento civil.

Digo pseudo pleitear porque esse discurso aparente do tal movimento serviu apenas para dar uma conotação pretensamente democrática e cor-de-rosa à uma agenda de base muito menos politicamente correta e muito mais passível de ser considerada como criminosa, fosse ela assumida tal qual realmente era, de maneira nua e crua: uma agenda homofóbica mascarada como defesa dos direitos de uns em manifestar sua opinião. Paradoxo dos paradoxos, famílias inteiras nas ruas manifestando contra um direito que seria apenas estendido igualitariamente a todos os cidadão de seu país, sem que isso tirasse o que quer que fosse de seus próprios direitos adquiridos. Muitas manifestações, gente na rua, declarações as mais absurdas possíveis, confrontos, violência… Foi a primeira vez, na minha vida, em que vi pessoas saírem nas ruas para protestar contra os direitos de seus semelhantes. Foi um choque, uma incompreensão. Achei que não poderia haver pior que isso.

Mas sim, eis que pode. E o Brasil, que parece ter um gosto curioso por tomar a dianteira em tudo aquilo que mostra o pior da espécie humana conseguiu me surpreender fazendo pior do que os franceses essa semana e aprovando o tal Estatuto do Nasciturno. Em matéria de defender o não direito de nossos semelhantes, parece que somos sempre capazes de ir ainda mais além.

O tal estatuto, basicamente, obriga uma mulher que engravide, e em nome dos direitos de seu feto, embrião, sei lá o que que ela tenha ali dentro dela antes que isso possa ser considerado um ser vivo, a preservar essa gravidez, custe o que custar, doa a quem doer. O que significa: uma gravidez de um feto não viável, que não tem nenhuma condição de manter-se vivo, deve ser preservada até o final. Uma gravidez de um embrião ou de um feto que tenha morrido também deve ser preservada. E aquela que traz risco à vida da mãe, por alguma questão de saúde dela. E mesmo aquela que culmina em um aborto espontâneo é sujeita à suspeita, pois a mulher que engravida e perde o bebê pode ter feito algo em prol disso e, nesse caso, terá atentado contra a vida dele e estará sujeita às punições previstas em lei. Mas a cereja do bolo da surrealidade do tal projeto é a defesa da manutenção da gestação mesmo no caso de um embrião que seja fruto de um estupro. Aí é até previsto que essa mãe obrigada a gerar e parir este filho receba uma ajuda do Estado para manter essa criança, e que o “pai” pague pensão ao filho, caso seja identificado. Como é que é?

Aqui também há uma safadeza gritante, que como na aparentemente inofensiva “Manifestação para todos” francesa, mascara uma agenda bem menos nobre. Não é de se espantar que uns e outros façam parte, em termos gerais, de uma assustadora mesma tendência conservadora que parece que se instaura e se insurge com mais e mais força e violência a cada vez que um passo em direção a uma sociedade mais justa, igualitária e respeitosa das diferenças é dado em qualquer canto do mundo. E não é à toa que as estratégias, os discursos e a má-fé nos seus modus operandi se assemelhem tanto, ainda que um seja um movimento social e outro um projeto de lei de dois países tão diferentes quanto França e Brasil. A base de onde brota tais horrores parece ser a mesma: a não tão subterrânea intolerância religiosa que transforma dogmas em verdades inquestionáveis  e se dispõe a matar e a morrer por elas.

O singelo nome de “Estatuto do nasciturno”, que pretensamente estaria defendendo os direitos de um ser inocente que não pode defender-se sozinho, é na verdade uma das maiores recusas de direito a um seu semelhante. O direito do embrião na barriga é a máscara da negação dos direitos da mulher. Uma agenda perversa que se volta contra uma parcela da população, deixando em condição mais precária e desamparada quem, historicamente, pouco ou nada teve de amparo e proteção ao longo dos últimos dois mil anos.

Que seja uma agenda para criminalizar o aborto disfarçada de defesa dos direitos de um indefeso, me parece extremamente perverso. E digo perverso no sentido psicanalítico do termo, que quer dizer colocar o outro no lugar de objeto do seu desejo, do seu querer, em uma condição servil e assujeitada, em que não se pode mais dizer de si. A quem interessa que mais da metade da população de nosso país não possa mais – ou possa ainda menos – dizer sobre seu corpo e suas escolhas? E em nome do que essas pessoas – vulgo nós, mulheres – teríamos que ser silenciadas quanto à nossa decisão, sempre tão delicada, pessoal e complexa, de ter ou não um filho? Em nome dos direitos de quem? Do nasciturno?

Mas quem é esse nasciturno?

Que o tal projeto advogue como certeza que um conjunto de células é um ser vivo com direitos a serem defendidos é, no mínimo, uma leviandade. É tentar impor uma verdade religiosa em um campo em que a discussão científica e/ou filosófica se manifesta de maneira muito mais humilde e cautelosa. Ninguém sabe com certeza em que momento um ser humano é um ser humano. Não no caso do amontoado de células, ou do embrião, feto ou afins. Mas me espanta muito que uma mulher tenha que ser desconsiderada enquanto ser humano dotada de direitos para que um questionável nasciturno que ninguém sabe como e se existe tenha os seus.

Não é de hoje que vemos um aumento de uma agenda religiosa que tenta se sobrepor ao que deveria ser uma discussão política. Isso sempre existiu, se olharmos historicamente. Uma grande promiscuidade entre igreja e estado, que só se atenuou às custas de muita briga, muito sangue, muitas cabeças cortadas. E o grande acontecimento de uma revolução francesa, por exemplo, foi justamente poder dissociar poder político de poder religioso, criando um projeto de Estado laico, em que as decisões, as leis e os valores de uma sociedade passam a ser pautados por outras coisas que não o saber religioso. Mas, quando a “Manif pour tous” acontece na França ou quando o “Estatuto do nasciturno” aparece no Brasil, vemos o quanto estamos longe dessa separação entre religião e Estado, que insidiosamente ou nem tanto, se mascara de cor-de-rosa para defender discriminações, preconceitos e violências contra parte das pessoas que esse Estado deveria se prestar a defender.

Quem acredita realmente que em um país como o Brasil, em que a educação e a defesa dos direitos das crianças pena para se fazer valer, uma criança que ainda nem existe possa e deva ser mais protegida do que a criança que ela, eventualmente, será? Pois, se ela for mantida a qualquer preço, tendo o dinheirinho da bolsa estupro ali garantido até os 18 anos, quem disse que isso é uma condição de vida digna para esse ser? Nascer sem ser desejado é melhor do que não existir? Para quem?

Quem acredita realmente que uma gestação é apenas a garantia das condições biológicas para que ela aconteça, mesmo assim, na marra? E que isso não traga nenhuma consequência a quem é obrigado a ter um filho indesejado? Ou inviável biologicamente? Ou não importam as consequências para essa mãe e para esse filho, relativas ao modo como ele veio ao mundo e às suas capacidades de manter-se nele?

Quem acredita que uma mulher escolhe abortar de maneira tão leviana que isso tenha que ser impedido de ser feito, para que ela “aprenda” a se responsabilizar pelos seus atos? Ou que é uma questão de educação e de prevenção? Ou será que tudo isso não mascara apenas uma intolerância religiosa, preconceituosa, que tenta fazer valer a sua verdade como verdade absoluta a qualquer preço, às custas das vidas de crianças e de mulheres que, não precisa ser nenhum gênio para imaginar, seriam profundamente afetados por essas obrigações que lhe pesariam como condenação?

Isso tudo só faz sentido dentro de uma lógica onde estar vivo é uma condenação que se paga com o sofrimento frente a um pecado cometido.Que belo jeito de começar a vida, não? Já é um condenado fruto de um pecado pelo qual paga com o sofrimento que é aguentar uma vida de condenações. Quem consegue achar que essa maneira de ver a vida faz algum sentido e é a melhor para quem quer que seja?

Quem acredita que não se faz aborto no Brasil porque ele é proibido? Ou que fechando ainda mais o cerco as pessoas vão deixar de fazê-lo? Só mesmo em um país onde se pensa, ainda, que jogar as coisas para debaixo do tapete e fingir que elas não existem é um bom método para que desapareçam, celebrando a hipocrisia e a ignorância como modus operandi ideal para lidar com as dificuldades das pessoas e de todo um povo. Como se essa estratégia já não tivesse dado mostras, em nosso país, que a coisa não se sustenta muito tempo assim, na base do segredo e que, nas palavras do bom e velho Freud, o recalcado sempre retorna para cobrar a conta. Quantas contas hão de ser cobradas por esses nasciturnos? E quem vai pagá-las?

Alguém se importa que os direitos que são pseudo defendidos para os tais nasciturnos são os mesmos que são negados diariamente para crianças que existem e estão vivas no nosso país, ou para as mulheres, ou para os homossexuais, ou para os negros, ou para os pobres? Ou seja: direito à vida, à saúde, à alimentação, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar, como diz um dos artigos do projeto? Não somos capazes de defender e garantir os direitos básicos de nossos cidadãos e agora, ainda por cima, decidimos tirá-los de parte deles para garantir os direitos a uma idéia de que um conjunto de células é uma pessoa?

Quem quer que já tenha trabalhado ou que tenha se dado ao trabalho de conversar com mulheres que fizeram um aborto sabe que essa é uma decisão tão difícil quanto a de ter um filho. E, isso, mesmo em lugares como a França, onde o aborto é permitido. Imaginem o que vira essa decisão no Brasil onde, além do mais, a decisão é ilegal, desrespeitada e, muitas vezes, solitária. Uma dor para a qual, muito me espanta, não se encontra nenhum eco no discurso dessas agendas perverso religiosas. Que, suspeito, de religiosas não têm nada, pois carecem de alguns dos fundamentos mais básicos de todas as religiões, como a compaixão, a compreensão, o cuidado com o próximo. Quem é contra o aborto, tem o direito de não abortar. Quem decide, por suas legítimas e complexas razões, fazê-lo, por que não tem esse direito?

A que ponto chegamos em que verdades absolutas a serem defendidas valem mais do que pessoas, agendas pseudo-políticas valem mais do que os direitos de nossos semelhantes e em que pessoas sentem-se liberadas para, da maneira mais perversa e violenta possível, manifestarem todo o horror do pior que elas podem ser assim, na cara dos outros, contra os outros, querendo transformar o seu pior no pior para todo o mundo?

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