Vida lá, vida aqui

Ou coisas que ganhamos e que perdemos vivendo fora do país. Ou as fases pelas quais passamos vivendo fora. Ou, os dilemas de ser estrangeiro. Ou… ah, chega de prolegômenos e vamos ao que interessa!

Vira e mexe aparecem uns textos de pessoas contando como é viver fora do Brasil e sobre o que aprenderam com isso. De pessoas que viveram em algum outro país por um curto período de tempo, por conta de estudos ou trabalho, ou de gente que foi por algum motivo e acabou ficando. O mais recente falava que viver fora é para os fortes. Depois de mais um período de férias no Brasil, diria que não sei. Talvez viver ali seja para os fortes. Talvez simplesmente viver seja para os fortes. Ou, talvez, viver seja apenas viver. E ninguém precisa de uma medalha de força e coragem por conta disso. É o que fazemos.

Logo que chegamos a um outro país, das duas, uma: ou nos fechamos num queixume sem fim e vivemos num gueto, fazendo programas brasileiros, entre brasileiros, falando português, comendo comida brasileira e comparando tudo sempre entre lá e cá. Ou temos a impressão de estarmos em um lugar que corresponde a algo profundo em nós mesmos, como se estivéssemos no lugar certo pela primeira vez na vida e finalmente pudéssemos viver. Conheço histórias dos dois tipos, de gente que foi e voltou sem nunca ter realmente vivido onde estava, gente que queria recriar sua realidade brasileira em um novo lugar, sem se abrir para absolutamente nada de novo. E histórias de gente que chegou e mergulhou nessa diferença que traz o delicioso sabor de uma liberdade inesperada. Uma espécie de coerência entre o lugar em que você vive e você mesmo. No meu caso específico, pertenço ao segundo grupo.

Quem vai para outro país por conta de estudos ou pesquisa parte em um contexto bastante privilegiado. As universidades, em qualquer lugar do mundo, costumam ser lugares em que a troca e a abertura ao outro é bem recebida e até incentivada. Por todo canto do mundo existem programas de intercâmbio, bolsas de estudo, pesquisadores convidados, parcerias entre universidades… Então temos uma chegada pela “porta da frente”, facilitada, bem vista, felicitada.

Mas esse modo de chegar, de início provisório, também cria uma bolha tão sectária quanto a do gueto: quem chega para passar um tempo, por maior que seja, como estudante, doutorando, pesquisador, estagiário não vai se confrontar com muitas facetas da realidade da vida em um outro país. Apenas quando você precisa lidar com tarefas muito cotidianas como declarar impostos, solicitar documentos, utilizar serviços de saúde, trabalhar é que começa a sair dessa zona de conforto de estar com um pé aqui e outro lá – estar em lugar nenhum – para se encontrar no lugar de estrangeiro vivendo noutro lugar.

Na minha experiência foi impactante a mudança desse lugar de estudante e pesquisadora convidada por uma universidade, o que me trouxe até aqui, para o lugar de alguém que iria ficar. Um choque de realidades. E ter que, de uma hora para outra, reaprender a viver.

Morar em outro país é ter que reaprender a viver. Em outra língua, em outra cultura, com outros códigos. Coisas evidentes como autenticar um documento ou chamar um encanador para desentupir um encanamento tornam-se, de um dia para outro, complicações praticamente insolúveis. Onde precisa ir? Com quem precisa falar? Como é que diz cano entupido em francês? Putz!

Então, depois dessa lua-de-mel que pode ser o começo de vida fora do seu país de origem, e que pode durar mais ou menos tempo, quanto mais sua situação pareça provisória e quanto mais seu encontro com o lugar onde vive seja superficial e não resvale muito nos aspectos difíceis… bem, depois do romance, vem a realidade. E ela parece tão menos agradável quanto menos você a compreenda.

Aquilo que você não entende e não sabe como fazer, como pedir ou como acessar esbarra, muitas vezes, na falta de abertura e na insensibilidade dos “locais”. Desencontros de costumes e linguísticos se misturam com preconceitos, racismo, xenofobia e você acaba acreditando que aquela recusa, aquele atendimento grosseiro, aquela dificuldade em fazer o óbvio são contra você. E leva muito tempo para conseguir distinguir o que é xenofobia do que é apenas um funcionamento burocrático e burro ao qual todos daquele país estão igualmente sujeitos. E isso se repete tantas vezes que você fica desencantada, com raiva, ressentida. Aquelas pessoas, aquele país, não te querem ali.

Isso é uma verdade que cedo ou tarde todo estrangeiro descobre. Quem quer estar ali é você. Então cabe à você uma boa parte do trabalho e do esforço. Isso não exime o país que te acolhe de fazê-lo de fato. E não exime as pessoas de aprenderem sobre hospitalidade. Mas você também vai ter que se mexer se quiser criar uma vida possível em outro lugar que não onde tudo era mais confortável. E, nossa, como tudo parece mais fácil e mais simples e mais bonito e mais saboroso e mais simpático e mais colorido e mais tudo de bom no Brasil desde que você não vive mais ali.

Um dia você acorda e se passaram três, quatro, cinco anos. Você finalmente percebe que o que era provisório tornou-se mais permanente do que imaginava. E então começa aquele período de arrumar a casa. Você se instala aqui, você se desinstala acolá. Casa permanente é diferente de casa provisória, onde você acampa. Você quer suas coisas, não todo aquele mundo de objetos, trecos e cacarecos que a vida fora te ensinou que são superficiais e dos quais você aprendeu a separar-se tão bem. Quer aqueles objetos de família, aquelas poucas preciosidades que deixou guardadas em algum lugar seguro, esperando que algum dia pudesse ter algo que novamente fosse próximo do que considera um lar. Quer as fotos, os papéis velhos e empoeirados, quer os livros, os quadros, os móveis da avó. Você fecha aquelas contas no banco que ficaram penduradas por lá, na esperança do “vai que”, você muda seu título de eleitor, seu domicílio fiscal e até seu domicílio no facebook. E abre conta, e declara imposto, e começa a trabalhar mais seriamente do que os “bicos” daquela vida provisória que não eram para durar mesmo.

E quando vai ao Brasil, acontece uma coisa estranha. Você se dá conta que a vida daquelas pessoas tão queridas, tão amigas, tão próximas acontece. E que você não faz parte dela. Vocês se falam, vocês trocam mensagens, e quando se encontram é uma alegria, uma celebração. Mas elas estão ali, prisioneiras do dia-a-dia que não é mais o seu. E você, pouco a pouco, passa a ter um dia-a-dia que lhes escapa também. Cursos que você não fez, encontros aos quais não foi, livros dos quais não participou, festas nas quais não esteve, mudanças, acontecimentos, oportunidades. Concursos para professor, vagas de emprego que são a sua cara… essas coisas chegam na sua caixa de mensagens quase como uma ofensa, uma lembrança daquilo que você não vai viver. E é quando você começa a se dar conta do que está perdendo.

Para morar em um outro país, é preciso perder o futuro que a gente teria no nosso país de origem. É preciso aceitar perder e, para isso, é preciso perceber que perdemos. Perdemos o que poderia ter sido se tivéssemos voltado. Perdemos onde teríamos chegado, perdemos o que poderia ter acontecido. Perdemos o famoso e angustiante “e se…”.E pouca gente se dá conta, no idílio amoroso dos começos de vida fora, ou nos meios revoltantes do choque de realidade de uma vida que se instaura que há algo que estão, constantemente, perdendo. E que cada dia a mais em um lugar estrangeiro é uma camada a mais de distância daquilo que poderia ter sido se você tivesse ficado. E então, quando você de repente se dá conta, vem a deprê.

Ou a crença no famoso plano B. Conheço gente que vive falando que está cansada do jeito como as coisas são no Brasil e que vai embora do país, sabe como é? Já falei disso antes e expliquei que esse é o alento que temos em acreditar em um plano B, em guardar a idéia de que basta estalarmos os dedos e irmos embora para reinventarmos a vida. Pois é, a crença no plano B de quem mora fora é o inverso, é aquela idéia guardada em algum lugar de que essa é uma situação provisória e que vamos voltar. Cedo ou tarde vamos voltar e vamos retomar tudo aquilo que ficou nos esperando e do qual temos lembrança.

Mas… pessoas, lugares e oportunidades não ficaram no esperando. Porque a vida não fica em standby para a gente ir ali ver se algo funciona ou se a grama do vizinho é mesmo mais verdinha. E, o que é mais difícil se dar conta e assumir, provavelmente nem vamos voltar.

Morar em um outro país é a prova de que se pode mudar a vida, mudar de lugar, criar recomeços. Então, claro que sabemos que não existe situação definitiva. E quando falo aqui de que não vamos mais voltar, isso não é um absoluto, uma certeza absoluta, uma imobilização. É apenas uma tomada de posição, uma mudança de mentalidade que acontece com todo mundo que decide, em algum momento da vida, investir seus esforços em algo tão grande ou importante quanto construir uma vida em algum canto. Porque mesmo que isso possa em algum momento mudar, seu estado de espírito ao fazer aquele investimento, ao fazer aquela aposta, é de que seria como um casamento, é de que seria “para sempre, até que a morte os separe”. E aí, você se joga. Mas antes de se jogar, ou enquanto está se jogando, ou depois mesmo de ter se jogado, olha e descobre que não vai viver umas tantas coisas. Que pareciam ser o seu destino ali onde estava. O que, por si só, é uma ilusão. Que você acalenta do mesmo modo que todo mundo acalenta em si ao menos uma certeza absoluta baseada em nada além de muita vontade: “se eu estivesse lá, seria isso ou aquilo”, “se eu tivesse ficado…”.

Quantas vezes você vai imaginar, no final do dia, como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai ter certeza de que sabe como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai acreditar que teria sido muito melhor se tivesse ficado… se embrenhando em uma espiral de constatações de perdas e de lutos e de tristezas por tudo o que perdeu e tudo o que não foi e que teria sido se tivesse ficado… Nossa, todo estrangeiro em um país outro que o seu vive, penso eu, essa fase dolorosa do “se eu tivesse ficado…”. E para alguns isso parece durar para sempre, a pessoa se fecha em um lamento e em um ressentimento sem fim, como se culpasse a vida, o mundo e todas as pessoas de uma escolha que foi só dela. Vira melancolia. Saudosismo. Outras tantas vezes, um patriotismo exagerado e fora de lugar. E nessas horas também as pessoas se fecham no gueto e se ufanam de serem brasileiras e comem e bebem e saem e falam e tudo é Brasil, Brasil de um Brasil que elas nunca viveram porque ele, simplesmente, não existe. É o Brasil ideal no lugar onde antes ficava o outro país ideal, o país dos sonhos. Que agora é bem real, cheio de paradoxos, de burocracias, de chatices e de desafios cotidianos. Infernal. Como é a vida, para aqueles que esperavam viver outra coisa que não aquilo que ela pode ser. Até que… um dia… muda.

Um dia você está voltando para casa depois do trabalho, ou de buscar as crianças na creche ou do que quer que seja e, de repente, se dá conta de que gosta dali. Você gosta daquela vida. Você gosta daquele lugar. Não, não do lugar do glamour da imagem que as pessoas fazem de onde você vive e de como é a sua vida mas do lugar mesmo, daquelas pedras ali no chão, da cor dos prédios no final da tarde quando tem sol, do gosto do pão que você come de manhã, do modo como a luz entra pelos galhos das árvores em cada estação do ano… Você gosta mais do que desgosta. E depois de pensar e acalentar e acariciar por um minuto ou dois mais uma daquelas imagens “e se” na sua cabeça, você enjoa e acha que seria muito, muito chato. Se “qualquer outra coisa”, você ainda preferiria estar ali. E é quando descobre que está voltando a habitar seu presente.

Um dos lutos mais difíceis para quem mora fora do Brasil é construir uma família em outro país e se dar conta de que seus filhos, mesmo sendo brasileiros, nunca serão realmente brasileiros como você. Eles falarão português com sotaque, no melhor dos casos. E seus gostos, seus cheiros, seus lugares, suas histórias e seus trajetos, suas cidades, seus percursos serão, para eles, apenas “as histórias da mamãe”. Não serão as marcas deles pois eles não estarão nos mesmos lugares, nos mesmos gostos, nos mesmos percursos, nas mesmas praias nas férias para terem, eles também, suas marcas e suas histórias ali, onde tudo para você foi tão importante. Talvez eles olhem tudo o que você apresenta para eles a cada viagem de férias no Brasil com o interesse, o carinho e o apreço de… um estrangeiro. Num certo ponto, eles serão sempre um pouco estrangeiros na sua casa e você na deles. Tem coisa mais estranha e difícil de lidar?

Mas você está aqui, ou ali, ou lá, ou como quer que se chame esse lugar que você escolheu. E a vida foi sendo vivida e você criou raízes. Para além da paixonite aguda e meio boba do princípio, para além da revolta dos confrontos e das diferenças, para além das perdas e dos lutos… eis você ali, ainda ali. Vivendo. E alguma coisa muda sempre que a gente decide viver o que está vivendo.

Quando fui ao Brasil dessa vez, sentia um medo de chegar lá e não encontrar o país que conhecia. Por motivos óbvios, ligados ao momento atual, à surrealidade do que se vive no meu país, ao absurdo, ao grotesco da conjuntura política, das relações violentas que se instauraram entre as pessoas, dass mentalidades podres e pobres que se desvelaram e que nunca imaginei tão podres e tão pobres… enfim… Tantas coisas aconteceram por ali que eu nem sonhava possíveis. E às quais eu só conseguia responder com perplexidade, apreensão e desesperança. Mas esse medo tinha não apenas uma justificativa macro, como também micro, pessoal, subjetiva… de chegar ali e não encontrar mais aquele futuro que eu tinha, não encontrar mais o meu “e se”. Não me encontrar mais ali.

Pois um dia, cedo ou tarde, depois que você vai embora, você não se encontra mais naquele seu lugar quando volta. Você não se encontra, pois já está em outro lugar. E tudo fica muito estranho, tudo ganha ares de despedida. Porque você foi indo, foi indo, foi indo tanto que, finalmente, foi.

“Um dia eu volto, quem sabe…” diz a música. Toda música de quem foi e um dia vai voltar é lamento. E tem uma hora que, de tanto ir e voltar, você vira de lugar nenhum. O que talvez seja um alento para algumas gentes. E uma aflição para outras.

A vida por aqui é. Bem. Normal. Com os prós e contras que todo lugar tem. Tem conta para pagar, tem casa para cuidar, tem filho para levar na escola, tem dia de chuva, tem momentos de tédio, tem passeios, tem descobertas, tem resfriado, vinho ruim, bad hair day, brincadeiras, livros, gente interessante, conversas… A vida por aqui tem um monte de saudades de quem está longe. E um pensamento para cada um deles a cada dia. E uma vontade de compartilhar umas tantas coisas. E de se queixar de outras e poder reclamar e terminar rindo junto. Porque tudo é tão besta quando se está entre amigos. E tanta coisa fica leve com a família por perto.

Então, obrigada para vocês do lado de lá por existirem, por não serem apenas memória e continuarem vivos e presentes. A distância te ensina, quando você mora em outro país, sobre o que é realmente essencial e que você não perdeu quando foi embora: as pessoas. As pessoas estão aí. E aqui. E lá. E acolá. Elas estão para você. E você para elas. E o resto não tem, na verdade, nenhuma importância.

Fui.

 

Morar fora

Feliz ano novo, meus queridos!

E aí? Já estão de malas prontas para deixar o Brasil que não começou 2016 tão diferente do que terminou 2015?

Decidi começar o ano por um post daquela série “maternidade na gringa“. Porque sempre me perguntam como é viver for do Brasil. Mais do que como é ser mãe fora do país, as pessoas parece que querem saber como é viver o “sonho de morar fora”. Então, aí vai. Vocês que pediram, hein?

Em uma época de tantas crises e decepções no Brasil, o que mais ouço são amigos e conhecidos dizendo que vão embora do país. Se em 2009, a cada vez que escutava essa intenção me prontificava imediatamente a ajudar a pessoa com mil dicas e encorajamentos, hoje apenas me limito a sorrir.

Morar fora – ou dizer que vai fazê-lo – é ter o conforto de poder contar sempre com um plano B. É a carta na manga, a insolência de poder dizer: “ah é? Então não brinco mais!”, pegar a bola do jogo e virar as costas. É manter sempre uma porta de saída imaginária no fundo da cabeça da gente, para acreditarmos que basta um estalar de dedos e podemos nos materializar numa realidade outra em que tudo seja melhor, mais bonito e mais feliz.

A verdade? A maioria esmagadora das pessoas que passam boa parte do tempo dizendo que vão embora do Brasil não vão fazê-lo. E isso pelos mais variados motivos. Motivos práticos, motivos econômicos, motivos afetivos e, principalmente, pelo simples motivo de que ir embora do seu país e reconstruir sua vida num outro lugar é para bem poucos. E aqui não há nem um cheiro de esnobismo, como se o mundo se dividisse entre os fortes, aqueles que vão embora, e os covardes, aqueles que ficam. Até porque poderíamos adjetivar justamente da maneira contrária: fortes são os que ficam, covardes os que vão. Não, não se trata de um julgamento de quem é melhor, nem de se é melhor ir ou ficar. Trata-se de uma constatação feita a duras e dolorosas penas de que, para deixar o seu país e, principalmente, para se instalar em um outro lugar, é necessário ter uma certa condição. Psíquica. Em outras palavras: é preciso ter estômago, muita determinação e nervos de aço.

Então como é morar fora? É legal? É demais? É melhor do que aqui?

Todas as pessoas que conheço que vieram morar na França endureceram. É bem estranho encontrar outros brasileiros porque todos – ou todas – qualquer que seja sua história e os motivos e meios que os trouxeram até aqui, são num primeiro contato pessoas mais duras, desconfiadas e fechadas do que os primeiros encontros que sempre tive no Brasil. Ok, o sorriso trai a brasilidade. Mas não se  engane: os brasileiros que conheço por aqui são bem mais sérios que os de lá. Durões. Circunspectos. A ponto de escutarem comentários a cada vez que visitam nosso país de origem do quanto se tornaram esnobes. Não nos tornamos esnobes. Nem tampouco franceses. Endurecemos. Criamos casca e carapaça. Como todas as outras, não consegui fugir à regra e endureci igual minhas amigas. Acabei desenvolvendo a teoria de que morar fora endurece a gente.

Não, não é isso que você escuta ou lê quando aparecem aqueles relatos lindos na internet de como morar um ano fora mudou a cabeça da pessoa, abriu os olhos, libertou, criou novas perspectivas e tudo o mais que parece tão revolucionário que faz te sentir menor apenas pelo fato de ainda não ter feito as malas e largado tudo para passear mundo afora. E ficam os sites estilo matadorhypeness e sei lá mais quais publicando listas e listas das dez razões pelas quais você precisa morar fora, ou das dez coisas que aprendi quando larguei tudo e fui morar no X (preencha aqui com o nome da sua cudade-sonho-de-consumo), grandes responsáveis por te fazer se sentir um lixo. E ficam os seus amigos que moram fora do país postando fotos da escapada de final de semana em Barcelona, ou da balada em Berlim, ou do verão numa ilha grega paradisíaca de mar azul turquesa e que te fazem passar por um bobalhão tirando férias em Ubatuba. E ainda têm os reaças de plantão ameaçando mudar para Miami a cada vez que algum acontecimento político os desagrada. Não, morar em qualquer outro lugar é sonho de consumo, é ideal, é bem melhor do que aqui, é bom demais, não? Pois é, meu caro ou minha cara, desculpa ser eu a te contar isso mas, a coisa, na verdade, não é bem assim. Ou não é apenas isso.

Quem coloca a mochila nas costas e passa um ano fora, faz um sabático, um doutorado sanduíche, um curso de línguas ou o que quer que sirva de pretexto para um período fora do país dificilmente ultrapassa a superfície em que tudo pode ser encantador, surpreendente e promotor de descobertas e mudanças. E esse encantamento pode mesmo acontecer, quando a pessoa que chega se abre para o desconhecido, se redescobre outra em novos itinerários, noutra cultura, noutros costumes, noutra língua. Que bom que é assim! Que bom poder viver isso! Mas experimente ficar um pouco mais de tempo e viver uma vida mais banal e você vai perceber que o glamour da vida na gringa não é nada glamouroso não.

Chegar e se instalar noutro país mexe demais com qualquer um. Tem gente que se vicia nessa sensação de se reinventar e nunca mais quer ter raízes em lugar nenhum. É a euforia da novidade: quem, por exemplo, não imagina que seja um imenso prazer morar em Paris e ter todos os dias aquela beleza toda ao alcance dos olhos? E poder descobrir cada cantinho, explorar cada museu, cada monumento, cada construção, cada restaurante, cada esquina, cada detalhe? Como se viver em Paris fosse o equivalente de fazer todos os dias aquilo que a gente faz durante uma semana quando vem à passeio, como turista, como se fosse turistar em Paris em férias eternas. As pessoas em geral parecem ter um sonho de Paris, um mito de Paris, um anseio de Paris como o lugar mais belo, mais chique e mais maravilhoso para se viver nesse mundo. É o sonho do turista que idealiza o lugar pelo qual passa como aquele que seria o melhor para se instalar e viver a vida. Posso dizer, com todo o amor que sinto por Paris e mesmo sem levar em consideração a ameaça terrorista que paira sobre todos indiscriminadamente desde o ano recém terminado: não é. O lugar onde a gente vive é diferente do lugar onde a gente passeia.

Experimente ter horário em Paris. Ter que correr para um compromisso sem poder olhar as maravilhas do caminho. Correr para pegar o metrô, o ônibus, o trem. Correr e perder metrô, ônibus ou trem e ter que esperar o próximo, sabendo que vai se atrasar. Correr na rua do ponto de metrô, trem, ônibus até o lugar onde vai. Correr na rua em dia de frio, debaixo de chuva e neve. Ter que botar a cara na rua em dia de frio, chuva, vento e neve porque precisa cumprir algum compromisso. Ter que pagar aluguel (caríssimo) para morar num lugar minúsculo em que não cabe nem um terço das coisas que você acumulou no Brasil. Morar num prédio sem elevador e ter que subir com malas e compras. Fazer faxina. Lavar roupa. Passar roupa. Cozinhar (quando a cozinha tem um tamanho que permite fazer algo mais do que um miojo, claro). Experimente desentupir uma privada ou limpar o sifão da pia da cozinha porque esses serviços quase não existem, não funcionam 24 horas e, quando você encontra um encanador, custa uma fábula. Experimente a fila do titre de séjour e as burocracias da previdência social e da seguridade social. Experimente preencher formulários. Ou conseguir um emprego. Experimente pagar impostos na França. Todas essas banalidades podem deixar um estrangeiro maluco, simplesmente porque ele não nasceu e cresceu ali onde as respostas para essas tarefas quotidianas não precisam ser explicadas, de tão evidente que são.

Paris é uma cidade cara, que expulsa cada vez mais para seus arredores os jovens que não conseguem morar na cidade. Existem bairros inteiros que se tornaram casas de veraneio de ricos do mundo inteiro, bairros vazios, sem vida, sem graça. Existe a Paris dos turistas, sempre lotada, tumultuada, suja, intransitável, com gente se atropelando em todas as calçadas e filas intermináveis. Existem mil lugares lindos, graciosos e interessantes nessa cidade. Mas quem vive em Paris não passa a vida passeando. E isso você descobre apenas quando mora tempo o suficiente para que o encantamento cada vez que cruza uma ponte sobre o Sena ou dá de cara com alguma de suas maravilhas se mistura aos desafios cotidianos de ser um estrangeiro nessas terras.

Não apenas Paris, mas a França como um todo endurece a gente. Ou morar fora do seu país de origem, onde quer que seja, endurece. Caleja.

Porque, não, morar em Paris, morar na França não é como turistar indefinidamente nesse país. Basta precisar de algo banal e comum para se dar conta de que a maravilha acaba onde a vida quotidiana começa.

A França é um país cheio de burocracias e preconceitos. Sim, o país das Luzes tem seu lado escuro, racista, xenófobo, cheio de piadas com estrangeiros, atos de violência contra pessoas de certos países e/ou de certas religiões, intolerâncias quotidianas contra quem não fala ou fala mal o francês, julgamentos segundo as aparências os mais diversos. Foi numa das melhores universidades francesas que ouvi, pela primeira vez, um professor universitário falar mal de uma colega, pelo simples fato dela ser mulher. E melhor sucedida intelectualmente do que ele, diga-se de passagem.

A cada vez que você precisa renovar seu titre de séjour, ou abrir uma conta em um banco, ou solicitar um papel qualquer, trocar sua carta de motorista, validar seu diploma… enfim… cada vez que você precisa fazer algo banal e quotidiano, algo que não tem nenhum glamour e não participa do mito da vida maravilhosa na França você é confrontado com a burocracia francesa, o excesso de regras, de papéis, a falta de jogo de cintura e a indisponibilidade francesa em explicar aquilo que, para eles, parece óbvio. Tem quem diga que é assim para todo mundo. Até mesmo para os franceses. Mas a essa tacanhice se soma um certo gostinho por lembrar ao estrangeiro que ele está ali por uma concessão. Quem mora fora do seu país talvez passe a vida inteira com essa sensação de que estão lhe fazendo um favor. Maneira sorrateira de subjugar o outro.

Você é alguém no seu país? Tem trabalho, profissão, diploma, pós-graduação, mil especializações? Ok, aqui nada disso vale e você vai ter que validar seu diploma, refazer seu trabalho de conclusão de curso da graduação, fazer estágio… Conheço gente que, frente a essas exigências surrealistas desistiu e ficou cuidando da casa, dos filhos, ou foi trabalhar em subemprego, mudou de área. Não sem uma boa dose de depressão e revolta. Por isso as pessoas parecem duras, frias e distantes. É porque já tomaram muito na cabeça.

Quando você é estrangeiro, nunca sabe até que ponto as dificuldades que enfrenta para dar conta das tarefas mais banais se devem à sua condição ou se é assim para todo mundo. Tem gente que fica paranóico, achando que tudo é xenofobia. Tem quem desiste de tentar. E tem quem aceite as regras do jogo e faça o que dizem que deve ser feito. Para trabalhar, para ter documentos, para ter acesso aos serviços de saúde…

Morar fora do seu país de origem te confronta a um constante desconhecimento. O lado maravilhoso disso é se redescobrir ou se reinventar em um novo cenário, com novas pessoas, em outra língua. E poder fazer diferente, melhor. Ser surpresa em cada canto, a cada dia. O lado cansativo disso é ter que reaprender a andar, a existir, a viver com outras regras, outros papéis, outros jeitos de fazer as coisas, outros códigos que só aprendemos errando, derrapando e tendo que fazer e refazer gestos os mais banais.

Tem gente que se sente muito mal frente a tanto desconhecimento e tanta diferença e se fecha logo de cara. Tem quem se vicie nessa adrenalina do novo. Em ambos os casos, essa imersão inicial de quem acaba de mudar de país, superficial porque totalmente alienada das mazelas do dia-a-dia, parece que nos coloca frente a quem somos ou poderíamos ser se pudéssemos começar tudo de novo. Tem quem goste e se jogue na experiência. Tem quem deteste e passe o tempo todo se escondendo do contato com tudo o que é desse novo país, andando apenas com brasileiros, falando português, comendo comida brasileira, lamentando não estar em casa sem, no entanto, pegar as malas e voltar. Paradoxos de ser estrangeiro que só entende quem fica tempo o suficiente para sair da posição de turista permanente.

Se você pensa realmente em mudar de país, por qualquer motivo ou projeto que seja, e se vier me pedir conselho, acho que posso resumir todo esse texto longo em algumas poucas linhas: leve em consideração que nenhum lugar nesse mundo é o melhor lugar para se viver. O melhor lugar para se viver é o lugar onde você se sente melhor, não um lugar em si. Cada país, cada cidade tem suas vantagens e desvantagens e você ser feliz em um lugar ou outro depende mais da sua disponibilidade e do que é prioridade para você do que de qualquer outra coisa. Morar na França tem inúmeras vantagens. Mas tem o terrorismo. Morar no Brasil tem inúmeras vantagens. Mas tem corrupção, violência, falta de água, retrocessos… O que é mais importante para você?

Ninguém vai facilitar sua vida em um outro país. Você é quem foi, você é quem quis. Então, cabe a você se adaptar e não exigir que sejam eles que se adaptem. Claro que cabe exigir tolerância e abertura ao outro, o contrário da xenofobia. Mas querer que os franceses sejam sorridentes como a gente, que os serviços sejam rápidos e eficazes, que tenha pão de queijo e misto quente na padaria e mais um monte de coisas que são a nossa cara é ignorar que se está em um outro país. Se é para mudar de vida, mude de fato, não fique vivendo a vida velha na nova.

Agora, se é apenas para ter o conforto do plano B, tudo bem. Todo mundo precisa da ilusão de que pode fazer qualquer coisa. Lembre-se apenas, quando vier me perguntar como é viver na França, que minha resposta reclamona vai ser bem parecida com a que você daria se eu perguntasse como é viver no Brasil. Minha vida é bem parecida com a sua, não se preocupe. Mudar de país muda muita coisa e muda muito a gente. Mas não muda a vida em algo diferente do que seja viver.