Quem tem medo da dependência?

Cena 1 – na consulta pediátrica antes da alta na maternidade:

– Os bebês choram, especialmente no final do dia, para evacuar o estresse. Pode deixar chorar que faz bem, viu?

Cena 2 – alguém da família, em relação a uma bebê que não tinha nem um mês de vida:

– Ela deve dormir no quarto dela. E se ela acorda de noite e não for fome, pode aprender a voltar a dormir sozinha.

– Você precisa descansar, vá dormir e deixe ela chorando que ela se acalma.

Cena 3 – visita da sage-femme:

– A partir dos três meses, o bebê tem que estar dormindo no próprio quarto.

Cena 4 – outras pérolas de pessoas da família:

– Mas está mamando de novo?

– Ela não está mamando, ela só quer ficar brincando com o peito.

– Se fica no colo o tempo todo, vai ficar mal acostumada e daí quero ver ela acostumar a dormir no berço.

– Se ontem ela fez um intervalo de duas horas entre as mamadas, hoje já pode começar a espaçar, né?

Cena 5 – no consultório da pediatra número 1:

– Sua filha não ganhou peso suficiente, você precisa complementar com leite artificial.

– Mas se eu completar, ela vai parar de mamar no seio e vai acabar ficando apenas na mamadeira.

– Isso pode ou não acontecer. Mas não se deve fazer heroísmos com a amamentação, tem que completar para ela ganhar peso. Dê um seio por cinco minutos, o outro por mais cinco e complemente a mamada com a mamadeira.

Cena 6 –  Outras pérolas dos amigos e familiares:

– Que gulosa!

– Por que não dá uma mamadeira de noite, para você descansar?

– Essa menina vai ficar grudada com você, quero ver como vai fazer quando for voltar a trabalhar.

– Se desse uma chupetinha, ela acalmava e dormia.

– Se desse uma mamadeira, ela dormia a noite inteira.

*****

O que essas cenas todas têm em comum?

Além de serem pitacos, mais ou menos revestidos de argumentos de autoridade, são falas de uma extrema violência. Sem levar em consideração aquela a que se dirigem, nem a pequena recém-nascida à qual fazem referência, cada pessoa, em cada uma dessas falas, não hesita nem por um minuto em propor algo como solução para todos os problemas e tumultos que um bebê novinho provoca: uma separação. Pois é disso que se trata: dos pediatras aos profissionais de saúde, dos amigos aos familiares, todos parecem muito preocupados que o bebê se torne muito dependente da mãe e, com isso, a solicite demais.

Parece que as pessoas têm um pavor da dependência, dessa quase simbiose que ocorre no início da vida entre uma mãe e seu bebê. Tomam isso como algo nocivo, prejudicial, que deve ser evitado, abreviado, terminado tão rapidamente quanto possível. Médicos, profissionais de saúde, família e amigos repetindo clichês do senso comum baseados em uma psicologia de botequim segundo a qual depender seria errado e apenas tolerável em pequenas doses em circunstâncias para lá de extraordinárias. E, às vezes, nem mesmo assim.

Um bebê recém-nascido, desamparado e desconhecendo totalmente os meandros desse mundo deveria, pela lógica dessas pessoas, rapidamente “aprender” a se virar sozinho, a se auto consolar, a se auto acalmar e a gerir suas próprias ansiedades. E tais pessoas sustentam essa posição apoiadas por um sem número de discursos, livros, textos e métodos que, pretensamente, guiariam seu rebento rumo à autonomia e, consequentemente, a uma vida mais plena e feliz. Um bebê independente tão cedo quanto possível… foi dada a largada. E cada um que publique orgulhosamente as conquistas de seus pequenos como grandes aquisições: chorar e se acalmar, dormir sozinho, mamar na mamadeira sozinho, brincar sozinho… Ficar sozinho. Sozinho é sinônimo de autonomia?

Nem podemos dizer muita coisa, tendo em vista que o que apoia essa crendice do senso comum é uma psicologia revisitada e vulgarizada em que o percurso da dependência rumo à independência foi totalmente deturpado. Mea culpa, senhores psicanalistas, mea maxima culpa. Porque essa história de que filho grudado na mãe não pode e de que o pai tem que entrar na conversa e botar um limite virou argumento para o exercício de toda e qualquer violência contra a relação mãe-bebê. Por que isso?

As pessoas parecem aterrorizadas com uma das ocasiões em que a dependência e o seu corolário, o desamparo, aparecem de forma mais explícita e incontestável: a ocasião de uma mãe e seu bebê recém-nascido. Porque quem diz dependência diz desamparo. E nada maior e mais angustiante do que o desamparo de um bebê pequenino que chora. Ele chora e teme porque tem algo que o perturba. Ele se apavora e precisa de socorro. E, frente a esse desamparo, que mostra o quanto somos todos tão precários, tão indefesos, tão frágeis quanto esse bebê, mesmo que tenhamos nos esquecido e que tenhamos inventado camadas de proteção contra isso… Bom, frente a esse desamparo que o desamparo do bebê nos lembra, muita gente não aguenta.

Os comentários de pediatras, sage-femmes, familiares e amigos têm isso em comum: eles não aguentam constatar a dependência da bebezinha de sua mãe e o quanto essa dependência demanda, dessa mãe, um esforço, uma dedicação, uma atenção quase constante. Eles não aguentam porque essa dependência que eles rotulam de mimo mostra a eles o quanto essa bebezinha é precária e precisa, muito, de muita ajuda para as coisas mais básicas. E eles não aguentam porque isso lembra a eles que eles têm também muitas precariedades. E que eles muitas vezes se enxergam no choro dessa bebezinha. E que eles muitas vezes precisariam demais de chorar e de alguém que os consolasse.

Mais, paradoxo dos paradoxos, o que eles propõem é justamente o contrário daquilo que eles mesmos necessitariam frente ao próprio desamparo. Frente ao terror que essa precariedade provoca, frente à angústia que um choro de bebê traz, a solução de cada pessoa, mais ou menos revestida de argumentos de autoridade é: a independência. Independência não como uma conquista que se faz passo-a-passo, com a segurança de uma criança que aprende a andar, mas como uma imposição que se faz cada vez mais cedo na vida de um bebê. Se a dependência é um problema porque ela inquieta, tornemos as crianças independentes cada vez mais cedo. Se a dependência nos incomoda, tornemos ela um erro e façamos com que todos se ocupem de tornarem seus filhos independentes. Para que a gente não tenha mais que ver cenas de desamparo. Para que não tenhamos que escutar mais os choros doídos de um bebê.

Ser mãe é escutar muitas histórias de outras mães. E tenho ouvido muitas histórias dos pavores frente ao desamparo e à dependência. Mães que se sentem vampirizadas pelas necessidades de seu bebê, mães que se sentem tolhidas em sua vida, que se perdem de quem são. Nós mesmas, as mães, nos apavoramos com tanta precariedade. É assustador. E se alguém ainda nos diz que isso é errado, que isso vai prejudicar nosso bebê, que vai torná-lo incapaz de se separar e de ter uma vida para si, à angústia frente ao desamparo soma-se a culpa pela dependência que esse bebê tem em relação a nós e, mais ainda, à revolta: por que diabos ele precisa tanto de mim? Por que não se vira sozinho? Por que não dorme? Por que precisa de tantas coisas? Por que não para de chorar e espera um pouco?

Uma mãe violentada por tantos comentários que atacam justamente essa ligação tão intensa que ela tem e precisa ter com seu filho – para que esse viva, simplesmente – é uma mãe acuada, aflita e com raiva. E, nessa hora, se aparecem pessoas com soluções que propõem ainda mais distância entre ela e seu bebê – como a mamadeira que qualquer um pode dar, como o deixar chorar para dormir, como o dormir no próprio quarto ou como o não ficar muito no colo – ela corre o risco de aceitar, de bom grado, a solução. Afinal, como é que uma mãe sem apoio e com todos falando contra ela e seu bebê vai conseguir fazer frente a isso?

Depois do parto, começa a parte mais difícil da maternidade, que é o confronto cotidiano com seus próprios demônios, as necessidades extremamente demandantes que possui um bebê recém-nascido e o inferno que são os outros com suas opiniões e orientações sempre contra aquilo que é um fato nesse período: um bebê depende de sua mãe. Ele precisa dela. Muito. Por vezes, desesperadamente. E é uma exigência enorme essa necessidade. E é angustiante o desamparo desse serzinho. E é pesada a responsabilidade. E dói.

Nem vou comentar as orientações equivocadas de médicos apressados e despreocupados com o bem-estar de seus pacientes bebês e de suas mães. Nem vou comentar a falta de bom senso das pessoas que comentam antes de perguntar e dos que querem sugerir antes de buscar saber. Isso tudo é ignorância e estou aqui falando de uma outra coisa: da recusa das pessoas em apoiar e dar espaço àquilo que todo humano precisa no começo da vida: depender.

E, claro, você pode se desincumbir disso tudo com maior ou menor facilidade apostando na independência de seu bebê, tão rápido quanto possível. E você pode adotar todas as técnicas de encantadores de bebês e afins. E você pode seguir todas as orientações de pediatras e psis que dizem que é fundamental que o bebê se vire sozinho. E você pode acreditar que isso é que é autonomia. E que é disso que ele precisa.

Ou você pode ler o belo texto de D.W.Winnicott sobre a dependência absoluta que ruma para a independência, no livro: “O ambiente e os processos de maturação”. Entre outros que escreveram sobre o assunto de maneira séria e cuidadosa. Isso para trazer apenas uma entre muitas referências, em psicanálise ou fora dela, ou no campo daquilo que hoje se chama de criação com apego. Porque ainda tem quem se pergunta de que as crianças necessitam. E ainda existe quem não se sinta ameaçado pela precariedade de si e do outro.

Ou você pode apenas se perguntar se faz sentido isso. Essa pressa, essa pressão para que mãe e filho se separem logo ou, se possível, nem cheguem a se juntar. Essa repulsa do desamparo e da dependência. Essa culpabilização. E quais consequências isso traz para as crianças impedidas ou abreviadas na vivência dessa quase simbiose?

Noutro dia li em algum blog ou comentário desse mundo www da maternidade que filho mimado a vida conserta, filho carente, não. Faz sentido. Porque essa história de precisar muito rapidamente botar limite pro rebento não crescer mal acostumado e não sofrer é, muitas vezes, você criar um sofrimento a mais em relação a algo que a vida mesma vai providenciar. Que vida não tem limites e frustrações? Até mesmo a de um bebê recém-nascido, que sente fome, frio, calor, tédio, sede, sono e mais uma porção de coisas que a mãe dele não entende, nunca, completamente. Ou rapidamente. Então, por que acrescentar mais separação naquilo que, inevitavelmente, já está separado? E já o será ainda mais pela ação da própria vida?

Por que evitar o que a criança precisa: o colo, o peito, o aconchego, o consolo, o carinho? Será que é por que a gente não aguenta e não exatamente porque vai estragar a criança? Será que estraga? Ou estraga o nosso sossego, acostumados que estamos a não termos nenhum outro compromisso além do que temos conosco? Será que não somos nós que simplesmente não queremos tamanha ligação com um outro?

Por que uma mãe e um bebê incomodam na mesma medida em que fascinam? Por que todos, até mesmo as próprias mães, querem logo dar cabo desse vínculo?

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

A enxurrada dos outros…

OK, a ficha caiu, você entendeu que está grávida, que é real, de verdade, encarnado nas entranhas, cotidiano, inesperado… Você percebeu que segue o curso da vida, que faz parte da vida, sem cena de filme, slow motion, música de fundo, happy ending e tudo o mais que o imaginário hollywoodiano perversamente ajudou a enfiar na sua cabeça, dando o falso nome de romantismo a todas essas expectativas infundadas… Você está quase segurando a própria onda, mas então vêm os outros. Já dizia o velho Sartre: “o inferno são os outros”. Para o melhor e para o pior. Na alegria e na tristeza. Putz…

Minhanossaparabénsquecoisalindaquemaravilhavocêquistantodeveestaremestadodegraça… (Oi? Calma, deixa eu respirar, respira um pouco também, toma um chá, fuma um cigarro.) Não, porque você não fuma, né? Porque agora, vai ter que parar. Tem que cuidar do seu bebê. Aliás, beber, não pode. Faz mal pro bebê. Comer peixe cru, é proibido, você não sabe? Carne crua então? Banida para todo o sempre amém até o fim da amamentação. Olha, esfrega os peitos com uma bucha para não rachar. Esfrega mesmo, não para ficar hidratado, mas para virar uma crosta. Você já sabe se é menino ou menina? (Dãh…) O que você prefere? Ah, que bonitinho, vai ser a cara da mãe, do pai, dos avós, dos irmãos, do cachorro, do papagaio, do padeiro. Sempre soube que você seria mãe, você nasceu para ser mãe. (Hein?) Vai ser bilíngüe, que belezinha, falando português e francês, que amor. Olha, tem que se alimentar direito, dormir bem, até mesmo porque, depois que nascer, você nunca mais vai dormir na sua vida.

Babel - Cildo Meireles - 2001
Babel – Cildo Meireles – 2001

Sério, de onde as pessoas tiram esses comentários? Elas querem comemorar com você ou te fazer se jogar pela janela? Nada pode, faça isso, faça aquilo, nunca mais, acabou sua vida de tranqüilidade, sossego, casa arrumada, viagem, festa, amigos, sono, pele boa. É o quê? Um parabéns às avessas? Uma sede de vingança? Porque eu custo a acreditar que as pessoas realmente pensem que aquilo que elas estão dizendo, as dicas, o compartilhamento de suas experiências as mais grotescas tratando de cocôs, vômitos, doenças, perebas, celulites, estrias, peitos caídos, sobrepeso, cansaço, falta de sono e mais enjôos e enjôos e enjôos… duvido que os próprios seres falantes acreditem do fundo de seus coraçõezinhos que esse conversê todo ajuda a quem está do outro lado da linha, ali, ouvindo. Deve ser uma forma de evacuar, uma catarse, um exorcismo: falar de todo o horror com um sorriso no rosto, o olhar cúmplice e o tom de voz reconfortante de um parabénsestoutãofelizporvocê… E você com olhos de terror. Pois, se você tem ouvidos e eles escutam bem, os olhos reagem de acordo e viram duas estrelas estaladas na sua cara, prontos para sair correndo junto com todo o resto do corpo se ao menos você conseguisse fazer suas pernas te levantarem e correrem, correrem, correrem para o mais longe possível.

E então vêm os livros, os sites, os blogs (ops!), os fóruns, os programas na TV, os filmes, o John Travolta, a Kirstie Alley e o bebezinho tagarela do Olha quem está falando e você se percebe mergulhada em uma Babel de falas, palavras, frases, línguas… um ruído ensurdecedor, enlouquecedor. Tentar acompanhar, seguir, se orientar em meio a isso vira uma tarefa hercúlea, fadada ao fracasso. As opiniões, conselhos, orientações, tudo se contradiz, ninguém sabe o que fazer… qual é o caminho certo? Qual é o único caminho certo, a verdade?

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Tem gente que se salva no médico e no saber médico nessas horas. Toma as palavras do médico como cânones religiosos e segue à risca tudo. Tudinho. Mas isso não garante nada, não é mesmo? Se garantisse, todos os casos de inseminação artificial – situação na qual a gravidez não poderia ser mais controlada, vigiada, manipulada e orientada pelo saber médico – seriam bem sucedidos. Se os médicos soubessem exatamente o que fazer, como fazer ou quando fazer para garantir que uma gravidez corra bem, não teríamos, em tempos de primazia do saber e do poder médico sobre os nossos corpos, nenhuma gravidez que vai mal. Mas não é bem assim. E a gente, na angústia de perceber nossa falta de garantias, nossa vulnerabilidade ao acaso em uma hora como essas, prefere se confortar imaginando que a gente não sabe, mas alguém sabe. Alguém há de saber que tudo há de correr bem: o médico, a ciência, a nutricionista, o padre, o astrólogo, o psicanalista, Deus… Outro bom e velho, o Freud, já dizia que nós, os neuróticos, quando não podemos mais negar a nossa própria insuficiência e falta de garantia sobre nossa própria vida, quando não podemos desviar mais os olhos, arrumamos ainda um último suspiro e, numa tacada de mestre, deslocamos para outra pessoa a onipotência que vamos nos vendo perder: eu não posso, mas alguém pode. A onipotência da mãe não castrada, frase difícil, mas tão simples e verdadeira como o senso comum que se apressa a dizer que sempre existe, em algum  lugar, uma festa incrível acontecendo, para a qual você não foi convidado. Você está excluído, mas alguém está lá. Então, é só questão de descobrir como fazer para estar lá você também, como tampar os buracos, como conseguir todas as garantias. Alguém já viu vida com atestado de garantia? “Se você viver assim, vai ser feliz para todo sempre…” Ah, sim, nos contos de fada e nos filmes acontece… oh, wait!

Bom, o fato é que os outros engatam a quinta marcha da verborragia e você não sabe mais nem o que pensar ou por onde começar. E tudo isso porque você tem que estar muito, muito, muito feliz. Ouvido de penico e sorriso estampado no rosto, a imagem do estado de graça. Tentando seguir todos os conselhos. E fazer tudo certo. Certo?

Não. Donald W. Winnicott, um psicanalista inglês que era, também, pediatra entendeu, para a nossa sorte – ou a minha, ao menos – que uma mãe boa é uma mãe que é suficiente. Suficiente. Não perfeita. Não total. Não inteiramente certa. Em suas consultas como pediatra e como psicanalista, ele se deparou com muitas situações envolvendo as mães e seus bebês e adiantou – visionário – o que ia se intensificar no nosso século, chegando às beiras do insuportável: temos um excesso de falas, um excesso de saberes, um excesso de ditos, uma cacofonia absurda e enlouquecedora a respeito da maternidade. Uma cobrança pela perfeição, em meio à todo esse barulho. Enquanto que, segundo ele, se deixarmos um espaço para que essa mãe exista, ela vai achar o seu caminho como mãe. Ela vai fazer o melhor. Ela vai ser suficiente. E suficiente, é bom. Menos barulho, menos informação, menos conselhos, menos dicas, talvez faça sentido o silêncio que me acomete nesse início de gravidez. Silenciar para gestar. Silenciar para encontrar o quê e como fazer. Shhhhh…

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